A face, a brisa me afaga,
Deixando um quê que embriaga;
Minhas rugas gostam dela!
Traz-me carinho e meiguice,
Tal como se me cingisse
Meiga e suave donzela.

É o amor da natureza,
Que na sua singeleza
Lambe-me a face, sorrindo.
E eu, feliz e disposto,
Me alegro ao sentir no rosto
O vento brando zunindo.

Este sopro, rarefeito,
Mostra um secreto respeito
Por este tipo ancião.
Beija-me os poucos cabelos,
Mas lamenta eu mais não tê-los
Para adornar a feição.

Ora fria, ora quente,
Flui a brisa… De repente,
Acanhada, vai embora…
Resta o silêncio comigo,
Saudoso do vento amigo
Que já não sopra lá fora.

Do livro “O Grande Mar” – 2002

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