Lições de um operário: meu pai!

 O domingo amanhecia,
Já chegava um novo dia,
Quando a mãe me despertou:
-Meu filho, estou preocupada,
Passei a noite acordada
Porque seu pai não voltou.

Assustado, após ouvir,
Me apressei logo em sair
E fui até a construção.
Ao chegar, ali sentado,
Vi meu pai desanimado
De olhar fincado no chão.

Sem receber seu salário,
Porque o patrão usurário
Não pagou a semanada,
Ele estava amargurado;
Mais que isso, revoltado,
De alma despedaçada.

Aquele homem decente,
Que já fora tão doente,
Estava sendo aviltado
E eu, seu filho, seu sonho,
Sofria também, tristonho,
Por ver meu pai humilhado.

-Amanhã eu me demito,
Disse-me quase num grito,
Pois isso não é direito.
-Se teu primo é nosso amigo,
Como faz isso comigo
Que lhe dedico respeito!

Apesar da pouca idade,
E sem ter maturidade,
Falei-lhe usando critério:
-Se acalme, pai, dá-se um jeito,
O senhor é homem direito,
Deus protege quem é sério.

-Afinal, lá na gaveta
Daquela cômoda preta
O senhor tem reservado
O valor da prestação
Da bomba do seu João;
Pague alguns dias atrasado.

-Esse dinheiro não é meu,
Bravo meu pai respondeu!
-Inda que eu coma capim,
E não me faça careta,
Depois que vai pra gaveta
Já não mais pertence a mim!

Emocionei-me, sentido,
Ante o gigante ferido;
Meu olho ainda mareja!
Que lição naquele dia!…
Deus do Céu, Virgem Maria:
-Bênção, meu pai, onde esteja!

Do livro “O Grande Mar” – 2002

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