-É de espontânea vontade?
Perguntou o sacerdote.
Ao dizer “sim” eu ganhava
Por milagre um grande dote;
Além de uma esposa, um sogro,
Sogra, cunhados, um logro!
Um expressivo pacote…

Chegaram até uns sobrinhos,
Já me chamando de tio,
E eu, olhando assustado,
Nem pude dizer um pio.
Nessa multiplicação,
Veio gente em profusão,
Que até me deu arrepio!

Só pedi a mão da moça
Para formarmos um lar,
Criar filhos, criar filhas,
Aos quais iríamos amar,
Mas eu entrei numa fria
E até uma velha tia
Veio comigo morar.

Dizem que esse problema
Se deve à reencarnação,
Que aproxima o desafeto
Pra transformá-lo em irmão.
Devo ter sido uma peste,
É conclusão inconteste,
Em face da multidão.

Se hoje estou reclamando
É porque eu não sabia
Quem um simples “sim” num altar
Tanto parente escondia;
Cheguei a pensar, na hora,
Em dar no pé, ir embora,
Fugindo pra sacristia.

Mas o que me segurou
Não foi somente o papel,
Mas porque o padre insistiu
Que eu fosse sempre fiel,
Na pobreza ou na riqueza,
Tendo o pão que está na mesa
Gosto de doce ou de fel.

É assim um lar na Terra,
Este mundo probatório,
Onde todos nos juntamos
Para que, num ajutório,
O forte socorra o fraco,
Transforme em lar um barraco,
Faça o céu do purgatório.

Por isso hoje lhes confesso
Que após refeito do susto,
Já me sinto conformado
E até aceito que é justo,
O plebeu tentar ser nobre
E o rico ajudar o pobre,
Para o fraco ser robusto.

Com um pouco de esperança,
Carinho e muita bondade,
Todos vamos conseguir
Chegar à felicidade,
Educando filho e filha
Para fazer da família
O esteio da humanidade.

Do livro “O Grande Mar” – 2002 

  

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