Hoje vou contar a história
Do primeiro boletim
Que a professora do Grupo
Entregou-me e disse assim:
-Leve ao pai, para assiná-lo,
E depois traga pra mim.

Esse era o primeiro mês
Das minhas notas na escola.
Com apenas sete anos,
Menino de boa cachola,
Eu gostava de estudar
E só depois jogar bola.

Logo que cheguei em casa
Dei ao pai o documento
E então pude observar,
Com meu olhar sempre atento,
Que ao assinar nem sabia
Como pegar no instrumento.

Ele nunca usou um lápis
E nem mesmo uma caneta.
Percebi que para ele
A situação ficou preta
Pois a caneta pesava
Muito mais que uma marreta.

Tentou escrever “otávio”
Quase furando o papel,
Que até sentia em sua boca
Um gosto amargo de fel…
-Porque, meu Deus, o meu filho
Não tem um pai bacharel?!

Depois de passado um tempo,
Ele conseguiu, por fim,
“Assinar” o tal papel
E então entregá-lo a mim,
Dizendo: -É a última vez
Que assino o seu boletim.

-O estudo é para você,
Você não estuda pra mim;
Se você for mal na escola,
Poderá sofrer no fim.
Portanto, é a você que cabe
Cuidar do seu boletim.

-Se quiser mostrar-me as notas
Eu vou gostar de saber…
Mas isso você decide,
Não é obrigado a fazer,
Pois importante é que saiba
Sempre cuidar de você.

A partir daquele dia,
Com responsabilidade,
Eu honrei o nome dele,
Demonstrei maturidade,
Pois sempre fiz minha parte
Com toda dignidade.

São quase sessenta e cinco
Anos que isto aconteceu
E já vão quarenta e nove
Anos que meu pai morreu,
Mas inda está viva em mim
A lição que ele me deu!

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