Meus pais me ensinaram: – Seja bom, ajude as pessoas, seja honesto. Não só com o dinheiro, mas seja verdadeiro nas atitudes. Crescia e já nos primeiros anos eu percebia como era difícil viver como me ensinaram. Mas eu tinha de esforçar-me e ser bom filho. Ganharia o céu!

Disputando as primeiras namoradas ficou claro o que me esperava. A decência tinha de competir com a hipocrisia. Mas eu não desistiria.

Cresci, formei-me e saí em busca de trabalho. Sem amigos ou políticos que me recomendassem fui pelo caminho normal. E começaram as desilusões…

Sem experiência não podemos contratá-lo. Desculpe. – Só pagamos salário mínimo, porque você nunca trabalhou. – No escritório não temos, se quiser como operário… – Sei que tem diploma, mas outros também têm. – O emprego que temos não é para o seu nível. Lia jornais, falava com pessoas, procurava agências e nada! Qualquer coisa servia para começar, mas não havia nada.

Certa tarde, cansado, lembro-me que sentei na soleira de uma porta, pensando nas injustiças do mundo, com fome e perdido na multidão.

Um “carinha” me olha e pergunta: – E ai, meu, tudo certo?

Estranhei, mas que mal havia em falar com ele! – Legal não tá. Tô procurando serviço e não acho. Faz quatro meses.

É, emprego não tá fácil. Se quiser, posso arranjar um quebra galho, até “pintar” algo melhor. É coisa “manera”, mas dá pra faturar uma “graninha”. Será que chegou o meu dia, pensei. – Tem trabalho pra mim, perguntei-lhe?

– Pode ser. Eu trabalho para uns “caras” que vendem um pó pra curar dor de cotovelo, briga de família, traição… É remédio barato ! A gente compra e revende. O lucro não é grande, mas dá pro arroz e feijão…

– Remédio! Mas quem vende remédio é farmácia…

– Esse não, meu. Esse tem de ser tête-à-tête e em dinheiro vivo.. Toma lá, dá cá. Da fábrica ao consumidor, manjou? E aí? É pegar ou largar.

Tantas lutas pelo céu e agora à beira do inferno. Vou arriscar. Saio logo dessa.

– Falô, cara. Dá a dica. Qual é o barato?

– É assim que se fala, irmão. Vamos nessa!

Semana passada completei vinte e oito anos. Não fiz carreira como vendedor, mas virei consumidor do tal remédio que cura tudo. E como nunca tenho dinheiro, pra consegui-lo já roubei, matei e sei que logo parto desta pra melhor. Fazer o que? Eu bem que tentei ser honesto, mas não deu.

Nos poucos minutos que a minha cabeça ainda me permite pensar, eu analiso e vejo como é difícil alguém ganhar o céu. O ser humano aqui da Terra não leva a sério essas coisas de amor ao próximo. Talvez em algum planeta haja quem se preocupe com os outros.

Sou escravo do maldito pó. Sonhei ser homem e hoje sou apenas uma droga.

Menção honrosa da Academia Literária Gaúcha no 3º Concurso Nacional de Crônicas e Poemas – 24/9/99

 

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