Ela, dezessete anos. Bonita, cheia de sonhos a povoar-lhe a mente. O príncipe encantado a atendia nos mais minuciosos anseios.

Filha única, família importante, vivia em conceituada cidade do interior de Minas Gerais. Sua mãe respeitável senhora e o pai um político influente. Eram figuras obrigatórias nas sociedades e nos eventos locais.

Apenas estudava, pois queria ter uma formação cultural para nivelar-se ao noivo, cobiçado jovem da cidade, que acabara de formar-se em medicina. Era competente obstetra que além de trabalhar no hospital da cidade tinha bem montado consultório presenteado pelos pais.

Programavam casar-se em seis meses. A casa já estava decorada e a lua de mel, depois de uma festa como a cidade jamais vira, seria em Veneza. Com direito a passeio pelos canais, ouvindo os gondoleiros com suas cançonetas.

Acabara de voltar da faculdade e passeava pelo florido parque da cidade. Um local aprazível e pacato. Era dia de semana e havia pouca gente em passeio. Mas ali não havia violência, assalto.

No entanto, como se fora trama do destino, que às vezes tenta entravar-nos a felicidade e altera o que era impossível de dar errado, ágil como um gato um louco salta à sua frente, tapa-lhe a boca e a conduz a um lugar ermo. Asfixiada, desmaia e o maníaco se aproveita para destruir o tesouro que guardava para o seu eleito: sua honra de donzela, que ali desaparecia sem que ninguém explicasse o por quê.

A família, preocupada, porque a noite chegara, sai a sua procura. Tiveram de recorrer à polícia, que rapidamente a encontrou. De roupas sujas, com dores e desconforto, imaginava que tivera um mal estar e desmaiara.

Mais calma, consegue recordar-se da cena. Fora atacada. De nada mais se lembrava.

Levada aos médicos, realmente havia sido estuprada e restava saber se do ato viria um filho e também alguma doença.

Passado o tempo necessário, exames e, felizmente, nenhuma contaminação, mas a gravidez fora confirmada.

A revolta dos pais é a convencional. Por que na nossa casa? Por que com nossa filha? Diante disso, aconselham o aborto para limpar-se da sujeira que seu ventre carregava, resultante de um ato agressivo e sórdido.

Consultada, a jovem é incisiva: – Não admito, sequer, discutir o assunto. Meu filho vai nascer.

A jovem sentia uma alegria interior que a unia intensamente àquele ser que começava a ter vida em suas entranhas. Uma luz se acendera dentro dela, fazendo esquecer o momento de dor que parecia trazer-lhe desgraça e infelicidade.

Nessa hora, suas convicções espíritas que jamais havia revelado aos pais católicos, davam-lhe a certeza de que não herdamos dos ancestrais a moral e o sentimento. Eles só fornecem um novo corpo para que a alma que já existe possa viver novamente.

Repetiu, enfaticamente: -Meu filho viverá.

O noivo não podia aceitar a decisão. Concordaria em desposá-la apesar de tudo, mas não criaria o filho de um maníaco, que, certamente, teria os mesmos instintos perversos do pai.

Ela, irredutível, esperou o filho nascer.

O doutor, totalmente desinteressado pelo destino da jovem, nem lhe ofereceu seus préstimos profissionais. O destino os separou totalmente.

A moça, sem abalar-se, tinha absoluta convicção do que fazia e queria. Chega ao hospital onde em pouco tempo vem ao mundo um bonito e saudável menino. Perfeito, fisicamente.

Ela, com muito leite, o amamenta com prazer. Ele, ao sugar-lhe o peito, extrai o alimento com lhaneza. Parece que não quer feri-la; nunca. Se o nenen é pequeno, o espírito que o anima já se demonstra um gigante de sentimentos e já o mostra no simples ato de mamar.

Passam-se os anos e o menino se desenvolve. É motivo de alegria para a mãe, que o amou desde o primeiro segundo que o sentiu em seu ventre. Inseparáveis, completam-se.

Na escola, goza da simpatia de todos e, apesar de não ter pai, o que realça numa cidade de interior, ninguém o discrimina. É bom colega, as meninas já o paqueram e os professores o respeitam pelo interesse e responsabilidade que dedica aos estudos. A mãe já o havia deixado a par do acontecimento e o fato de ter nascido de um estupro não o incomodava. Amava ainda mais a mãe por ter lutado pelo seu nascimento.

Estuda línguas, pratica natação. Tem corpo de atleta.

Os avós aprenderam a amá-lo e esqueceram os traumas que envolveram o seu nascimento. Acreditam, mesmo, que a determinação da filha valeu a pena.

Chegam férias e os dois saem em merecida viagem de recreio. Mãe e filho, felizes, botam o pé na estrada…

Oito horas de uma manhã ensolarada. De repente, um carro que ia à frente deles despenca do alto da ponte para dentro do rio.

O moço não pensa duas vezes. Estanca o veículo e, ágil, joga-se nas águas, mergulha fundo e retira um homem que tivera um mal súbito.

Levam-no ao hospital, enquanto a mãe, emocionada, admira a coragem do seu “menino”. Bem atendido, o homem fica fora de perigo.

Informado do acontecimento, demonstra desejos de conhecer e compensar o jovem pelo seu gesto corajoso. Pede que o convidem a vir visitá-lo, pois seus dados foram anotados na portaria.

Amável e simpático, como de hábito, atende ao chamado e volta ao hospital para conversar com aquele estranho. Vai em companhia da mãe que se mantivera em silêncio durante todo o episódio.

Quando o paciente viu a mulher, levou um susto e perguntou-lhe:

-Que faz você aqui?

-Vim acompanhar o meu filho, que atendeu ao seu convite.

-Seu filho!?

-Sim, meu filho. Aquele menino que você não quis aceitar e a quem, agora, deve a sua vida.

Num longo e emocionado silêncio, todos se abraçaram, sem que o jovem compreendesse o que estava acontecendo, porque esta parte da vida de sua mãe lhe era ainda desconhecida.

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