Ele, quarentão, tipo esguio, musculoso, olhos claros, daqueles que as moças não deixam em paz.

Ela, quinze anos, corpo de mulher, cabelos cuidados, pernas grossas e roliças, dentes alvos, olhos penetrantes, sorriso maroto.

Olharam-se e ele não deu muita importância. Era jovem demais para ele. Mas ela apaixonou-se. Teria de conquistá-lo.

Não foi difícil com seu jeito dengoso, angelical, envolvente. Em pouco tempo, casaram-se.

Dez anos e tudo corria bem. Mas ele chegou nos cinqüenta e ela nos vinte e cinco. Em plena fogosidade. O amor havia esfriado. Ter outro, porém, nem pensar.

Dadinha se controlava, embora olhasse para os da sua idade e tivesse sonhos eróticos. Zé Bento me mata se souber que eu ao menos penso noutro homem. Não tem jeito. Entrei nessa, pensava, vou ter de ir até o fim.

Quando saiam à rua, ele tinha quatro olhos para vigiá-la. Ai de quem a olhasse porque ele dava uns sopapos bem depressa. E todos conheciam seu gênio. Falava e fazia.

Dadinha tem uma idéia. Não dizem que mordida de cobra cura com veneno de cobra? Era isso.

Começou a sair para as compras e na volta reclamava do Toninho. Lançava um pouco de veneno. Inventava, mas…

– Que foi que ele disse?

– Não sei direito, porque não escutei bem. Mas coisa boa não foi.

Eu mato aquele cara!

– Calma, Zé, não fica nervoso. E lhe fazia um carinho.

Passados dois dias, lá vinha Dadinha.

– Zé. Toninho me falou umas graças. E me olhou com uns olhos de desejo. Até trancou a boca e me olhou chiando.

– Ah, mas eu pego aquele cabra. Que é que ele está pensando. Mexer com mulher casada…

E assim caminhava o tempo.

Certo dia, Zé Bento encontra Toninho e vai tomar satisfação.

– Você anda mexendo com a minha mulher, não é, seu safado. Melhor parar porque eu quebro a sua cara.

– Quebra nada, Zé. De mais, não estou mexendo com ninguém. Eu já tenho mulher e sei respeitar a mulher dos outros.

– Veja lá, eu te mato, hein.

E Dadinha continuava a pôr veneno no coração de Zé Bento.

Um dia, Zé estava nervoso, cheio de problema de trabalho, falta de dinheiro. Quando Dadinha contou que Toninho tinha falado umas graças para ela, ele saiu e encontrou o rival.

– Fala agora, moleque, o que você fala pra minha mulher.

Antes que Toninho abrisse a boca, meteu-lhe um tiro na testa e derrubou-o no meio da rua, para espanto de todos.

Preso em flagrante, Zé Bento foi julgado e condenado por homicídio premeditado. Culposo.

Dadinha chorou muito e repetia para o Zé.

– Zé, por que você fez isso? Eu não vou agüentar viver sem você.

Nos primeiros meses, ia visitá-lo todos os dias. Depois uma vez por semana, uma vez por mês. Enquanto isso, ela tinha todos os homens bonitos e jovens com os quais realizava suas fantasias e seus romances.

Um dia, bate à porta um mensageiro.

– A senhora é Da. Dadinha?

 – Sim, eu mesma.

– Esposa do Zé Bento, preso lá na Gamela ?

– Isso mesmo.

– Tenho uma notícia triste pra senhora. Seu marido foi encontrado morto na cela. Enforcou-se com um lençol.

Dadinha finalmente estava viúva. Mas, ao invés de ficar contente, Dadinha naquele dia chorou copiosa e convulsivamente.

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