Depois de ler o título acima, claro, você não se surpreendeu. Afinal, muitos eleitores são réus e nem por isso deixam de votar.

Mas você não entendeu o que eu disse, ou não me expressei corretamente: falo do réu que vota em processo no qual ele mesmo está em julgamento. Não acredita que isso exista? Pois então você não ouve rádio, não lê jornal nem vê televisão. Isso é habitual no Senado Federal da República Federativa do Brasil e em outros respeitáveis recintos. Acontece não só no côncavo, mas também no convexo e nas belas torres gêmeas que assessoram as duas arenas. 

Lá, eles fazem uma sessão secreta e votam escondido como o que manda uma carta anônima por falta de coragem de se identificar. Ou porque pretende chantagear. Dão o resultado e ninguém pode conferir se foi verdadeiro. Afinal, não permitem testemunhas e eles não merecem crédito.

O engraçado é que o réu ainda faz gozação com os que o entrevistam. Ao ser perguntado, um deles respondeu que ele foi um dos que abstiveram na votação. Não foi contra nem a favor, embora ele próprio fosse o réu. Pareceu-nos, inclusive, coerente, porque nem ele tem certeza de que deveria ser absolvido embora insistisse em se considerar inocente. Mais por autodefesa do que por convicção.

Já que isso lhes é garantido pela carta magna, e todos são iguais perante a lei, penso que o Sr. Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, o Sr. Salvatore Cacciola, o Sr. Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, os estrangeiros do narcotráfico e mesmo os apenados de nomes inexpressivos, se é que todos são realmente iguais perante a lei, deveriam ter todos os mesmos direitos.

Eu pensei que na altura dos meus setenta e três anos já havia visto tudo. Todavia, a cada dia me surpreendo com situações que eu jamais poderia imaginar que fossem possíveis. Como esta, quando um réu pode imitar a deusa grega Palas Athena (Minerva para os romanos), ao julgar o crime de matricídio cometido por Orestes, proferindo o voto de desempate e salvando a cabeça do criminoso. No caso presente, a própria pele.

O que eles garantem, porém, é que tudo foi feito de maneira legal. Conforme previsto na Constituição Federal, aquela mesma que eles fizeram e que nunca vigora para defender o desgraçado, mas que tem artigos estratégicos para defender os fazedores de lei. É legal, mas imoral. E ponto final.

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