Como o negro atado ao pelourinho, nascemos todos grudados à mãe!

Tão logo vemos a luz, escravizamo-nos ao seio materno, o primeiro passo na luta pela sobrevivência. Quando já não está seco, logo de cara, frustrando-nos!

Viramos escravos da respiração; do alimento da sobrevivência; do agasalho; da rinha chamada família para nos abrigar, da higiene, para limpar-nos corpo e alma,  e do leito para repor o desgaste das lutas pela libertação, quando tentamos desvencilhar-nos da escravidão ao destino.

Somos escravos da infância e do analfabetismo que precisamos combater. Vamos à escola onde somos escravos de um sistema falido, de professores mal pagos e, conseqüentemente, ineficientes.

Tentamos o particular, mas nos escravizamos à ganância do empresário da cultura que coloca como ideal primeiro o enriquecimento. A formação do saber vira detalhe…

Mas não desistimos e nos escravizamos ao cursinho para compensar a desilusão de um estudo mal feito e tentar vaga numa universidade. Aqui, a escravização é às greves dos insatisfeitos e insensíveis, que são também escravos da sua ignorância.

Um diploma! Finalmente!

Para que serve, além de decorar a parede do nosso quarto ou servir de enfeite no escritório ou consultório de um ancestral, a cujo DNA nós nos escravizamos. Somos um galho de uma árvore, geralmente sem vida própria.

Talvez sirva, ainda, como documento para sermos mais um funcionário desta saturada máquina pública, na qual para cada dois que controlam e fiscalizam existe um que quer trabalhar, mas os outros não deixam.

Sem conseguir essa desejada premiação para pôr nosso burro na sombra, nossa escravização, a partir de agora, será à falta de postos de trabalho. Toda a alegria da conquista e colocação do anel no dedo, desaparece diante de uma realidade a cada dia mais funesta. Somos escravos da inexperiência que eles nos cobram, mas que nunca nos deixaram ter.

Escraviza-nos o celular, o automóvel que paga imposto escorchante para andar em ruas e estradas avariadas,  e os tributos que os poderosos nunca nos devolvem em benefícios. Somos escravos de um título de eleitor, sem ter nada a fazer com ele. Mas somos obrigados a portá-lo porque a lei nos escraviza. Dão a isto o nome de cidadania, mas eu lhes digo o nome certo. Esperteza, que eles usam para se perpetuar na ociosidade das salas com ar condicionado, aluguel de graça, turismo com o nosso dinheiro e o resto que todos conhecem.

Somos escravos do banco, do supermercado, do cartão de crédito e do cheque pré-datado. Nesta senzala global, cada um de nós é um artigo de consumo que produz riqueza para os espertos desfrutar.

Escravos de inúmeras doenças, geralmente causadas pelos destruidores do planeta e pelas tensões que não podemos controlar, procuramos o SUS. É a primeira sílaba da palavra SUSTO, porque ali é lugar de morrer não de sarar.

Ficamos escravizamos, quando possível, à mafia dos planos de saúde que cobram o que querem, aumentam quando ficamos velhos e escolhem as doenças que podemos ter e o tempo que devemos ficar internados. Como se hospital fosse SPA ao qual nos afeiçoamos e de onde não desejamos sair.

Somos escravos da TV, do rádio e do jornal. Das notícias que falam dos desonestos e mostram como eles sempre se dão bem. Somos escravos dos Institutos de Aposentadoria que arrebanharam o nosso dinheiro, compulsoriamente, prometendo nos devolver quando estivéssemos inválidos, mas agora nos surrupiam um pouco a cada ano, até que se acabe ou tenhamos a sorte de morrer antes e não mais precisar dele. Que felicidade isto seria! Parece que é na verdade a única coisa agradável nesta vida…

Espero me livrar desta senzala verde e amarela brevemente, porque meu tempo está vencendo. Guardo a esperança de ter nesta escravidão avassaladora, conquistado alguma alforria que não me obrigue a ir para o inferno. Mas se eu tiver que ir para lá, não devo estranhar. Foi num ambiente semelhante que vivi por mais de setenta anos no chamado berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu, pro fundo.  Cada vez mais pro fundo…

E, além disso, se for condenado à escravidão do inferno, estarei cercado de gente tão importante, das casas legislativas, executivas e judiciárias de todas as esferas deste coração do mundo, que vivem nos mais de 5500 municípios. Sem contar com os representantes de todas as igrejas e templos de fé de toda ordem, que farão uma grande festa, com hosanas e louvores, enquanto todos nós vamos queimando em fogo brando como um apreciado e bem temperado churrasco gaúcho.

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