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A falta de solidariedade entre os homens faz com que os bancos de sangue estejam sempre com falta de estoque. Especialmente os mais raros. Têm menos receptores, mas também menos doadores.

O problema, e dizemos isso sem nenhum conhecimento técnico do assunto, parece estar na falta de planejamento e na acomodação dos responsáveis pela coleta do material.

Por que o governo não remunera de alguma maneira o doador? Muitos operários, saudáveis e sensíveis, gostariam de doar sangue. Acontece que eles terão de faltar ao trabalho, perder tempo, gastar com transporte, dinheiro que nem sempre têm, e como recompensa, eles recebem, quando muito, um copo de leite.

Se o governo tirar o traseiro das confortáveis cadeiras e deixar as refrigeradas salas dos centros de saúde e se dirigir a locais onde possa coletar sangue, seguramente os doadores aumentarão.  Ambulâncias com enfermeiras poderiam ir aos postos de arrecadação de sangue, previamente selecionados.

Por que não visitar fábricas, com aviso antecipado, para cadastrar os que desejam doar? Por que não ir às câmaras municipais e às assembléias estaduais, onde estão os que tiram o sangue do povo, e tirar um pouquinho do sangue deles? Igualmente nas casas do legislativo federal, nas salas do executivo e mesmo do judiciário, nas universidades, nos clubes,  nas sociedades amigos de bairro… Eles têm muito sangue e, geralmente, sangue quente! Até mesmo os presidiários poderiam ser fornecedores, com redução de um dia de pena para cada doação.

O que não pode é o governo arrancar o sangue do povo e depois vender por baixo do pano, como sempre é denunciado.

Outra sugestão? Ofereçam um ingresso para um show de artista famoso a quem doar sangue. Outro ingresso para uma partida de futebol importante. Como o governo gosta de levar vantagem em tudo, é o maior apologista da Lei de Gerson,  se o doador levar também uma quirera, vai se animar. Talvez até acabe se acostumando e passe a doar espontaneamente.

É muito cômodo fazer campanha de graça em horário nobre de TV, receber repórteres, com filmagem e tudo, para reclamar da insensibilidade do povo que deixa as geladeiras de sangue esvaziadas, posando de benemérito da humanidade. Mas como qualquer esforço é um trabalhinho, melhor reclamar do que trabalhar. Certo?

Ao trabalho, senhores! Enfrentem o marasmo!

São 9 horas do dia 27 de setembro de 2007. Diz o relógio do mundo que já somos seis bilhões, seiscentos e vinte e três milhões, setecentos e dezoito mil trezentos e oitenta e oito imbecis. Claro, menos 0,1% de privilegiados que vivem à custa desses seis bilhões e tantos.

Quando lemos que Ronaldinho Gaúcho tem proposta do Chelsea da Inglaterra para ganhar três milhões e seiscentos mil reais por mês para dar meia dúzia de chutes numa bola e ainda merece nosso aplauso e o título de gênio, sacramentamos nossa condição de imbecis.

Boato diz que Fernando Alonso, depois de envolver-se em espionagem técnica com prejuízo para a Ferrari, é agora convidado pela fábrica italiana para ser um de seus pilotos oficiais. E nós nos prostramos diante da TV, como imbecis assumidos, para torcer por este ou aquele, como se isso fosse coisa de gente séria. E ainda aturamos as patriotadas e matemáticas do ilustre Sr.Bueno.

Quando vemos uma cantora saracotear e soltar gritinhos histéricos diante de milhares de pessoas durante uma hora e meia e para isso ganhar quinhentos mil reais, temos aí mais uma assembléia de imbecis, assumidos e de carteirinha. Os antigos diziam que ao povo se devia dar pão e circo. Hoje, suprimiram o pão.

Ao nos depararmos com uma mulher de corpo bem feito e medidas corretas, mesmo por meio de recheios artificiais, ganhando milhões de dólares para rebolar diante de alguns privilegiados, que não estão entre os imbecis, exibindo roupas que valem ouro, nós acreditamos que houve equivoco na fórmula da criação… Furou, quem sabe!

Convidam os imbecis todo ano para que sejam extorquidos. Fazem campanha que levam esperança a crianças e mandam que depositemos nas contas de certos privilegiados nossos minguados reais e ainda nos cobram uma taxa pela ligação. Muita gente se dá bem com essa onda, menos as crianças que efetivamente precisam da caridade. Mas eles sensibilizam os imbecis com tal habilidade que saímos correndo para contribuir, imaginando que é coisa séria.

Dependemos dos celulares que nunca falam e custam caro. Mas ao constatar que esses mesmo celulares pegam os sinais perfeitamente nos presídios, de onde é administrado o crime aqui fora, e as autoridades não conseguem bloqueá-los, temos a confirmação de que somos imbecis e só morremos por balas perdidas porque os poderes oficiais dão efetiva colaboração, embora nos discursos tentem provar o contrário. Não sabemos o que é mais perigoso: o bandido ou a autoridade.

Os imbecis aplaudem e votam nos políticos que habitam as clausuras do direito e do poder. Os mesmos que, camuflados, traçam intercâmbios para benefício mútuo, porque, eleitos para ajudar e defender os imbecis, na verdade só defendem eles mesmos. Ali, a portas fechadas, não se condena ninguém, porque ninguém tem estatura moral para acusar. Se gritar “pega ladrão!…”, música cantada pelos Originais do Samba…, já nos  vem logo à mente o final do refrão.

Reúnem-se dez chefes de estado, travestidos de donos do mundo, e decidem sobre a sorte de todos os imbecis, deliberando quais países serão invadidos ou explorados e o que cada um deve e pode comercializar com o outro.

Os governos fazem lista dos desonestos para dificultar-lhes a vida. Mas os governos são os mais caloteiros e maus pagadores do planeta. Como não podem ser protestados nem processados, nem ter falência decretada, vivem de apontar as deficiências alheias.  Mas se um imbecil  é processado e prova que não deve, o governo recorre. Sem prazo, porque não lhe interessa correr por algo que não dá lucro. Nesse meio tempo nós que pagamos impostos corretamente ficamos impedidos de obter uma certidão que atesta a nossa idoneidade.

Os imbecis têm descontado, à revelia, nas folhas de pagamento uma porcentagem para ter uma velhice protegida. Mas quando ela chega está todo mundo perdido. Não há garantias de receber o que foi combinado, porque eles dizem que não têm dinheiro. Para funcionário público tem, mas para o trabalhador imbecil, não tem. É assim que funciona. Eles deveriam criar supermercados para ricos e outros para pobres. Mas isso não existe. Fazer o quê?

Os imbecis falam, reclamam, flagelam-se diante das notícias da TV ou das páginas escritas e eles riem. Estão sempre bem vestidos, elegantes e simpáticos, na mídia, importantes, mas se lhes tirarem os cargos e os fizerem cidadãos comuns, cairão de quatro porque são vazios. Se tiverem que trabalhar para viver, morrerão de fome. Usam jogos de palavras que não representam necessariamente as suas convicções, mas as suas conveniências. Por isso, o cristão de hoje será sem nenhum problema o comunista de amanhã. Só têm mesmo os postos que ganharam e não querem perder… Nunca mais! Afinal, eles não estão entre os da direita da vírgula sem razão.  

Entrem no site http://poodwaddle.com/worldclockes.htm e verifiquem quantos imbecis nascem a cada décimo de segundo no mundo, para constatar como os espertos terão inextinguível matéria prima para alimentar sua desonestidade e boa vida. E a grande maioria desses que agora estão nascendo, terá de procurar no lixo o alimento da teimosa sobrevivência.

Além disso, buscarão nas cacimbas e nos açudes barrentos as águas salobras para matar-lhes a sede, banhar seus filhos e cozinhar os restos que caem da mesa dos ricos ou que conseguem nas lixeiras das ruas da elite. Bem feito. Quem mandou nascer!

Enquanto isso, meia dúzia de idiotas tentam sabotar a transposição das águas dos rios brasileiros para lugares onde a seca é um flagelo o ano inteiro. É o BBB da ralé!

Ao ver o mundo parar para perguntar quem matou Taís e já com o anúncio de nova trama de duas caras, quando os personagens mudarão, mas as mutretas e as lições de criminalidade continuam as mesmas nessa nossa Universidade Oficial do Crime, a TV brasileira, subsidiada por respeitáveis empresas que também vivem da imprudência dos imbecis, nos rendemos e caímos vencidos. Nada mais há a fazer. O planeta ruiu porque o sistema faliu! Como planta bichada, só cortando para começar de novo. Não adianta mudar homens. São todos iguais e se não são, ao chegar ao alto padronizam-se alterando o que eram como ideal para ser o que é preferível ser, como meio de vida.

Mas, apesar deles, a poesia continua, porque pelo menos a bronca é livre e eles ainda não mataram as rimas! Camões já a usava desde 1572. O Brasil estava recém “descoberto”. Os imbecis eram poucos. Hoje já somos quase duzentos milhões! E a cada dia, mais longevos. Que coisa triste ter de viver na condição de imbecil.

As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando
Cantando espalharei por toda a parte
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Luís de Camões,
Os Lusíadas (1572)
Canto I, 1-2

A imagem acima é um risco para pintura em óleo sobre tela, de Leonardo da Vinci.
Boletim Informativo "Tribuna Literária"
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