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Joguei a tristeza fora,
fiz a saudade esperar;
Sente-se, não vá embora,
há muito que conversar!

Mas só me lembre da infância,
dos bons tempos de menino
quando eu sentia a fragrância
de um perfumado destino.

Saudade você registra
momentos de solidão,
de tanta coisa sinistra
que mora no coração.

Anota, às vezes, porém,
e nisso eu lhe sou tão grato,
momentos que estou no além
onde eu me sinto sensato.

Para que serve a saudade
se já não posso viver
as belezas do passado
e isso me fará sofrer?

Não quero sentir tristezas
nem penar um só momento,
quero curtir as belezas
viajando no pensamento.

Adeus, querida saudade,
que Deus a guarde encerrada
no cofre onde está a verdade
ou no que não vale nada.

Não mais desejo lembrar
do que fui ou eu quis ser,
eu quero apenas cantar,
fazer meus versos, viver!

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Eu faço verso e gostaria de ter
Uma editora que me desse apoio,
Pois tão suave como a água do arroio
O verso é o sangue do meu próprio ser.

Ele me chega como que em comboio
Com as mensagens de um amanhecer
Ou quando o sol já corre a se esconder,
Enquanto o trigo cresce e afoga o joio…

A toda hora o verso me assedia,
Num arrebol, de noite, em pleno dia,
Com mil idéias que chegam no ar…

Ele só quer me ver sempre diserto,
Que tenha algo de anotar por perto,
E algum papel para eu o enclausurar!…

 O jovem, malhado, exuberante e tatuado, goza o velho que o observa.

– E aí, vô, gostaria de ter um corpo como o meu?

– Eu já tive, disse o velho, calmamente.

– Não gostaria de voltar aos vinte e dois, que é minha idade?

– Pra quê.  Se já consegui superar a vulgaridade da sua faixa etária, por que passar por tudo isso novamente?

– Vai dizer que você não gostaria de ficar com essas menininhas que eu fico, todos os dias da semana. E elas me adorando, e dizendo que sou gostoso.

– O que você sente por elas e elas por você, é de mentira. O verdadeiro orgasmo não está nos órgãos do corpo. Ele se manifesta nas partes que não podemos tocar. É coisa de alma, não de corpo. Mas por que estou conversando isso com você, se não irá me entender?

– O senhor é contra o sexo só porque já passou da idade?

– Não meu, caro, ninguém passa da idade. Todos nós temos a idade certa na hora certa. Cada idade serve para uma coisa. Algumas para construir bases duradouras; outras para fazer castelos de areia. Como a sua, por exemplo. Sei, porque também já tive!

– Sabe, meu jovem, a vida é um contrato cheio de cláusulas. Algumas facultativas, outras obrigatórias.

– Como um contrato? A gente nasce, vive e curte, porque ela é uma só. O negócio é aproveitar. Olhe pra você, já não tem pique para fazer um programa como eu faço. Chego a transar várias vezes por noite.

Calmamente, diz-lhe o velho:

– E cada vez sente menos prazer porque está vulgarizando a relação como um drogado, um viciado, que sempre precisa de dose maior para que a sensação de prazer não termine. Como um alcoólatra. Do copinho para a taça e dela para a garrafa.

– No contrato da vida está escrito que você pode ser feliz ou não ser, pode ficar velho ou não ficar, pode ser comedido ou exagerado, solidário ou indiferente, entre tantas outras coisas. Mas há uma cláusula obrigatória em todos os contratos: Ela diz que você vai morrer.

– Por isso mesmo é que tenho de aproveitar. Por que eu vou morrer. Todo mundo vai. Você também.

– Mas há várias formas de morrer: Morrer feliz, contente com a vida que teve; morrer revoltado porque perdeu seu vigor e não pode mais fazer as bobagens que fazia; morrer de consciência tranqüila por ter respeitado a vida ou de cabeça baixa porque só perdeu tempo; morrer deixando saudade em quem fica ou alívio por estarem livres de você. Veja quantas maneiras de morrer!…

– Sabe vô, esse papo ta ficando careta. Vou encontrar com uma mina que é melhor do que ficar conversando fiado com você. Fui!

– Isso, meu filho, vá se divertir e volte aqui para continuarmos esta conversa daqui uns trinta ou quarenta anos. Nesse dia você vai conseguir entender o que eu estou lhe falando agora. Antes, não adianta. Tchau!…

Tal como João, quando foi  ao futuro
E o apocalipse lhe foi mostrado,
Vi que eu morri, mas que já havia voltado
Para enfrentar mais um pedaço duro.
Porém senti que o ar era mais puro,
Praias e matas cheias de beleza
Não vi mais rostos cheios de tristeza
Já não vi homens presos à ganância
Comida havia, e era em abundância,
Estava alegre a própria natureza.

Olhava bem, mas não tinha certeza
Que era na Terra que eu vivia de novo,
Era tão diferente o nosso povo
Em  harmonia e tudo era limpeza.
Havia pão por sobre cada mesa
Não vi mulheres revirando o lixo,
Já não vivia gente como bicho
Nem vi crianças muito mal nutridas,
Nem maltrapilhas; todas bem vestidas,
Num novo mundo, cheio de capricho.

Olhava em volta e via os automóveis
Movidos todos só com hidrogênio
E para nós sobrava oxigênio
Pois silenciosos pareciam imóveis…
Bem mais serenos do que os hipomóveis,
Ninguém morria mais atropelado
Havia respeito e velhos ou aleijados
Iam nas ruas sem preocupação
Não se sentiam mais em aflição
Com o desrespeito dos mal-educados.

Voltei à casa onde aqui morava
Vi a rua limpa, árvores floridas,
A diferença do jeito de vida
Era o que mais na Terra me encantava.
As mães agora já não mais choravam
Nem vi seus filhos se drogando enquanto
Outros queimavam num ranger de prantos
Que era comum em meu tempo passado,
Nem hipertensos nem mais infartados,
Nem os bandidos nos causando espanto.

Olhando, então, eu vi numa folhinha
Que o ano era o de 2080
Um mundo novo todo se apresenta
De homens reis e mulheres rainhas;
Escolas, médicos, todos já tinham
Sem ter políticos nem roubalheira
Nem ditadores nem pastor ou freiras
As religiões tinham um Mestre: O Cristo.
Elas se uniam porque em torno disto
Viviam em paz num mundo sem fronteiras.

Já não havia mais doenças tristes
Dessas terríveis que inda nos maltratam
Não vi olhos turvos pelas cataratas
Nem câncer, aids e outras que hoje existem.
Ninguém ofende o outro, dedo em riste,
Há mais amor embora ainda o trabalho
Tenha de dar ao homem o agasalho
Pois ainda está na senda do progresso
E quer chegar a ser, neste universo,
Um ser divino e não mais espantalho.

Que o nosso presidente é um fenômeno, ninguém duvida.Sua carreira política, iniciada em vida simples, é um atestado da sua inteligência e perseverança.

Como todo nordestino que chega a São Paulo em busca da sobrevivência, sua Excelência trilhou ásperos caminhos e procurou instruir-se em escolas profissionalizantes, para ter um conhecimento técnico que lhe permitisse manter-se e também à família. Concluiu o aprendizado de torneiro-mecânico no Senai e buscou trabalho nessa especialização nas Indústrias Villares.

Com o mesmo sonho que se encontra em cada brasileiro, queria ser dono do seu nariz. Desejava um negócio próprio e, portanto, abriu uma serralheria. Mas não deu certo. Sua praia era outra. Fechou as portas muito rapidamente.

Descobriu, como hábil ator político e psicólogo, algo que ninguém até hoje percebeu,  que o descontentamento dos homens poderia dar-lhe o lucro que não conseguira como “empresário”. Este havia sido um sonho miúdo, que já estava sepultado, diante do que realmente ansiava conquistar.

Presidiu o Sindicato da categoria metalúrgica e descobriu que as greves eram um filão extraordinário para quem quisesse projetar-se. Constatou, num momento de galopante inflação, que ao patrão interessava a greve tanto ou mais que ao empregado.  Porque se o salário aumentasse vinte por cento, o patrão reajustava o preço do seu produto também em vinte por cento, embora a incidência da mão de obra sobre o custo final não passasse de trinta por cento. Para empatar, portanto, não deveria aumentar mais que seis por cento. A greve dava mais lucro que o operário produtivo!

Na batalha, ou melhor, na farsa simulada, nosso torneiro-mecânico havia descoberto a sua real vocação.  Fingir defender os pobres para que os ricos ficassem mais ricos.

Os que fossem da indústria metalúrgica acabariam se dando bem, realmente, mas o restante da população pagava a conta. Aposentado, por exemplo, que não tem sindicato, foi empobrecendo a cada ano até chegar à atual miserabilidade.

O metalúrgico, presidente do sindicato, decidiu criar um partido político. Nada mais fácil do que arregimentar descontentes e, daí, nasceu o Partido dos Trabalhadores.

Começou a crescer na cabeça do retirante nordestino a idéia de voar mais alto e as asas seriam o Sindicado e o PT. Alado com tais atributos, não haveria como deixar de voar até as alturas.

Tramou,  terçou veementemente pelos ideais, até que chegou onde queria. Supremo mandatário da nação.

Será que vai dar certo? Afinal ele é analfabeto, ou quase. Como poderá dialogar com os eruditos chefes de nações, se nem o inglês, o esperanto da comunicação moderna, ele fala. Essa era a dúvida corriqueira.

Mas ele já havia adquirido – usando expressão inglesa – um completo know-how. Funcionara no micro, funcionaria no macro.  Se ele havia peitado e conluiado com os potentados das multinacionais, que eram os chefes de Estado senão acionistas majoritários de empresas privilegiadas, chamadas países.

Conversaria com eles, os presidentes, agora seus colegas, como conversava com os patrões, seus parceiros de negociação. Tomariam juntos seus tragos e dariam boas gargalhadas das piadas que os ricos sempre contam. São sem graça, mas para eles viram comédias.

Em que língua eles conversariam?

Na língua das  máquinas de tradução simultânea. Tão simples. Porque, no final, todos querem a mesma coisa: se dar bem! E nesse ponto, um grita, outro resmunga, aquele outro disfarça, bate o pé, mas é tudo teatro.  Eles só concordam num ponto. Vamos facilitar um pouquinho a vida dos miseráveis, porque assim teremos costa quente e votos ad aeternum para garantir nosso futuro, dos nossos filhos, dos nossos netos, dos nossos bisnetos, dos nossos…

Perceberam como é simples. É o chamado óbvio  u-lula-nte,  que os inteligentes percebem com extrema facilidade e que para nós, os obtusos, parece algo  extraordinário ou transcendental.  É questão apenas de maneirismo.

O que esperamos é que a ganância destes se perpetue para que não se esqueçam de nós. Embora eles vivam na cobertura e nós nos porões e nos subsolos, que eles jamais esqueçam que se o edifício ruir o baque da cobertura é ainda maior que o do porão. E mesmo que o prédio não soçobre, se houver ratos no porão eles chegam à cobertura pelos dutos da podridão. Por isso é sempre interessante manter a higiene do ambiente, antes que a vaca vá pro brejo.

Não sei se me fiz claro!

O poeta é um prosador
Que faz frases superpostas…
Nelas, e nisso ele aposta,
Camufla-se um sonhador,
Porque é na senda do amor
Que ele combate a sua guaia,
Procura que tudo saia
Na mais perfeita harmonia,
E assim colore o seu dia
Igual o arrebol na praia!

Decide chamá-las verso,
Só porque uma está em cima
Outra em baixo e, usando a rima,
Quer transformar o universo,
Porque o mundo vive imerso
Em ambulantes senzalas
E ele quer humanizá-las
Fazendo o povo sorrir
Nem que seja num fingir
Com simples fatos de gala!

Escreve frases, poeta!
Fale tudo o que deseja,
E eu espero, assim seja,
Que chegue a atingir a meta.
Não para ser um profeta,
Mas dizer coisas singelas
Porque as frases que são belas
São simples, despretensiosas,
Como as flores perfumosas
Que ornavam velhas donzelas!…

Quando visitou a terra,
Disse-nos Jesus: amai-vos;
Não se detenham nos laivos
Que a todo momento emperram
O grito que o céu nos berra
Para alertar os mortais,
Dizendo-nos amem mais…
Cabe a vocês, oh, poetas,
Mesmo os de rimas discretas,
Ser construtores da paz!…

A imagem acima é um risco para pintura em óleo sobre tela, de Leonardo da Vinci.
Boletim Informativo "Tribuna Literária"
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