O jovem, malhado, exuberante e tatuado, goza o velho que o observa.

– E aí, vô, gostaria de ter um corpo como o meu?

– Eu já tive, disse o velho, calmamente.

– Não gostaria de voltar aos vinte e dois, que é minha idade?

– Pra quê.  Se já consegui superar a vulgaridade da sua faixa etária, por que passar por tudo isso novamente?

– Vai dizer que você não gostaria de ficar com essas menininhas que eu fico, todos os dias da semana. E elas me adorando, e dizendo que sou gostoso.

– O que você sente por elas e elas por você, é de mentira. O verdadeiro orgasmo não está nos órgãos do corpo. Ele se manifesta nas partes que não podemos tocar. É coisa de alma, não de corpo. Mas por que estou conversando isso com você, se não irá me entender?

– O senhor é contra o sexo só porque já passou da idade?

– Não meu, caro, ninguém passa da idade. Todos nós temos a idade certa na hora certa. Cada idade serve para uma coisa. Algumas para construir bases duradouras; outras para fazer castelos de areia. Como a sua, por exemplo. Sei, porque também já tive!

– Sabe, meu jovem, a vida é um contrato cheio de cláusulas. Algumas facultativas, outras obrigatórias.

– Como um contrato? A gente nasce, vive e curte, porque ela é uma só. O negócio é aproveitar. Olhe pra você, já não tem pique para fazer um programa como eu faço. Chego a transar várias vezes por noite.

Calmamente, diz-lhe o velho:

– E cada vez sente menos prazer porque está vulgarizando a relação como um drogado, um viciado, que sempre precisa de dose maior para que a sensação de prazer não termine. Como um alcoólatra. Do copinho para a taça e dela para a garrafa.

– No contrato da vida está escrito que você pode ser feliz ou não ser, pode ficar velho ou não ficar, pode ser comedido ou exagerado, solidário ou indiferente, entre tantas outras coisas. Mas há uma cláusula obrigatória em todos os contratos: Ela diz que você vai morrer.

– Por isso mesmo é que tenho de aproveitar. Por que eu vou morrer. Todo mundo vai. Você também.

– Mas há várias formas de morrer: Morrer feliz, contente com a vida que teve; morrer revoltado porque perdeu seu vigor e não pode mais fazer as bobagens que fazia; morrer de consciência tranqüila por ter respeitado a vida ou de cabeça baixa porque só perdeu tempo; morrer deixando saudade em quem fica ou alívio por estarem livres de você. Veja quantas maneiras de morrer!…

– Sabe vô, esse papo ta ficando careta. Vou encontrar com uma mina que é melhor do que ficar conversando fiado com você. Fui!

– Isso, meu filho, vá se divertir e volte aqui para continuarmos esta conversa daqui uns trinta ou quarenta anos. Nesse dia você vai conseguir entender o que eu estou lhe falando agora. Antes, não adianta. Tchau!…

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