Existe antigo ditado,
Que diz que o filho criado
Dá um trabalho dobrado
Seja em qualquer situação.
Porque quando o tempo passa
Ele vai perdendo a graça
A infância virá fumaça
E chega a preocupação.

Depois de nascer bebê
Ele começa a crescer
E é hora de aparecer
Tempos de curiosidade.
Perguntas de todo jeito
Começa a perder o respeito
Não faz mais nada direito,
É a hora da puberdade.

Sai uma espinha no rosto,
Já no amor  tem desgosto,
E o colégio em que foi posto
Agora não mais o agrada.
Quer estudar noutra escola,
Não quer mais levar sacola,
Para os pais já nem dá bola,
Só pensa na namorada.

Falou-se aqui do menino
Mas quer “bambina” ou “bambino”
Mesmo os de trato mais fino
Põem de pé nossos cabelos.
Nos dão um grande trabalho,
Só em ferro frio bate o malho,
Porque vão no próprio atalho,
Não ouvem nossos apelos.

Finalmente a formatura
E após a batalha dura
Há uma pausa de brandura,
O filho virou doutor !
Esquecemos o passado,
Do trabalho desbragado,
Porque o menino formado
Merece agora louvor.

Porém não terá sossego
Vai ser difícil o emprego,
E nós que temos apego
Sofremos junto ao herdeiro.
Ele fica irritado
Porque está ruim o mercado
Mesmo para o diplomado,
Se for o emprego primeiro.

Eles pedem experiência
Que saiba bem da ciência
Da qual, com sua competência,
Trouxe o canudo da escola.
Mas o pior, minha gente,
Para enfrentar o batente
Tem de aceitar, bem contente
Salário menor que esmola.

Chega o dia do casamento,
O patrão lhe dá um aumento
Porque o nosso rebento
Vai ser chefe de família.
Então se ouve o ditado
Que o enlace consumado
Não levou o filho amado,
Deu de presente uma filha.

Mas essa estranha no ninho
Que vai nos dar um netinho
Recebe o nosso carinho
E nos passa para traz.
Perdemos a importância,
Nossa insignificância
Se mostra até na arrogância
Do nosso belo rapaz.

Importante é a sua amada.
A mãe agora é a criada,
Porque sogra é mal tratada,
Não é parente, é castigo,
Já diz o vulgar ditado.
E o pai vira um empregado
Porque já velho, coitado,
Não serve mais como amigo.

Mas seja lá como for,
Nada macula o amor
Porque ninguém tem rancor.
E enquanto a velhice avança
Vemos o filho crescido,
Um genitor e marido,
Mas é o mesmo que tem sido
Para os pais: Uma criança.

Do Livro “O Grande Mar” – 2002

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