Conheceu uma moça e gostou dela.
Pediu depressa a mão da tal donzela,
Pois desejava construir um lar.
Após casados, deu-lhes Deus um filho,
O lar passou a ter muito mais brilho,
Pois a família estava a se formar.

Desejava que o filho fosse um homem
De bem e que pudesse honrar seu nome,
Crescesse e se tornasse um superior;
Afinal, só queria o que é normal,
Porque um pai sempre tem por ideal
Dar ao filho carinho e muito amor.

Haveria também, após formar-se,
De ter seu lar e, assim que o consumasse,
Dar-lhe-ia também o amor dos netos.
Esse sonho, em verdade, realizou-se
E a vida, como um manso lago, doce,
Seria de harmonia e muito afeto.

Mas interfere a sua musa amada,
E aquela vida que foi planejada,
Começou a sofrer total mudança.
Roubou todo o carinho do menino,
E também o dos novos pequeninos,
Belos filhos da nossa tal criança.

Hoje, por isso, já não há mais festa.
Agora, e por enquanto, só lhe resta,
A esposa, que tem sido a companheira.
Os outros tão sonhados seus parentes,
Têm agora união com novas gentes,
Que ele da solidão sente-se à beira.

O chefe, que era outrora respeitado,
Que já não tem valor, foi rebaixado,
Espera ansioso que chegue algum dia,
Que o chame a morte ou venha a viuvez,
Para que possa ele, de uma vez,
Livrar-se de sentir tal nostalgia.

Por isso quer firmar, neste momento,
Para que fique escrito, em testamento,
Um desejo que, espera, atenderão,
Pois é vontade de consciência plena,
Para que à hora em que chegar a cena,
Não deixe mágoa em nenhum coração.

Se for antes da esposa, o que ele espera,
Cremem o que restar, pois é quimera,
Idolatrar-se alguém que foi um grilo.
Se ela morrer primeiro, e libertar-se,
Não quer ser amparado num disfarce,
Quer terminar seus dias num asilo;

Entre velhos, sofridos, mesma imagem,
Poderá ele usar igual linguagem
E consolar-se da triste odisséia,
Verá que a sua história foi comum,
Que teve vida igual a qualquer um
Dos outros membros da nossa alcatéia.

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