Conversando, um nordestino
Disse que por ser sulista,
Era muita pretensão
Eu querer ser cordelista,
Porque toda inspiração,
Seca, jumento e sertão,
Não são coisas de paulista.

Acontece que na vida
Todos têm o seu papel.
Se existe o analfabeto,
Há também o bacharel.
Se o verso é bem ajustado
Canta a vida, bem trovado,
Cabe também no cordel.

Neste solo brasileiro
Cada estilo é regional;
Existe a chula, o fandango
E o samba no carnaval,
Todos trazendo alegria,
Nas festas e romarias
Do folclore nacional.

Por isso, mesmo que diga
Que é cordel de almofadinha,
Todo cheio de chiadeira
Quando fala batatchinha,
Faço samba batucado,
Componho frevo e xaxado
E até arrisco uma modinha.

Fiz este verso em setena
Também chamada setilha,
Que embora não traga grande
Novidade ou maravilha
Serviu como um exercício,
Para eu mostrar este ofício,
Com minha própria cartilha.

Não ria nem faça pouco
Do meu rimar cuidadoso
Porque as minhas idéias
Hão de deixá-lo furioso
E, então, me terá respeito,
Sem usar de preconceito
Nem me fazer orgulhoso.

Observe que na rima
Eu não vivo do infinito
De verbo acabado em “ar ”
Que deixa o ouvinte aflito.
Aquele que rima assim
Não venha dizer a mim
Que faz um verso bonito.

Outra coisa que não faço
É abusar do gerúndio.
Existem tantas palavras,
Que cabem num latifúndio;
Lhe juro, nunca fiz cursos,
Mas eu consigo os recursos
Nas noites, pelo intermúndio …

Também do ão não abuso,
É terminação manjada.
Já desde o primeiro verso
Que a rima fica esperada!
Por isso que no repente,
Com um violão, muita gente
Engana até madrugada.

Meus versos de academia
Não são do seio da terra,
Vêm lá do céu, vêm da lua,
Que tanto mistério encerra.
Eu não pretendo entediá-lo,
Se de amor aqui não falo,
Não quero assunto de guerra.

Para acabar a conversa
E entender-nos numa boa,
Nós dois cantaremos juntos
Nos gramados da Lagoa.
Diremos versos com graça,
Faremos daquela praça,
O Ateneu de João Pessoa.

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