Não quero ser como o rio
Que nasce já com o destino
De perder-se noutro rio
Ou então, num desatino,
Ver-se engolido no mar,
No seu imenso intestino.
Eu quero ser um poeta
Que faz história no mundo
E que vive intensamente
Cada um dos seus segundos
Pois se o mundo é de miséria
Não vou falar coisa séria
Só cultivar a ilusão,
Vou enganar a tristeza
E viver a natureza
Que guardo no coração.

Não quero ser como o rio
Que já nasce condenado
A perder-se noutro rio
Ou no mar ver-se jogado
Sem qualquer identidade
Sem mais olhar o sorriso
Da lavoura que banhou
Ou mesmo aquela alegria
Do rosto do lavrador.
Não quero ser como o rio
E ser assim esquecido
Quero viver neste mundo
E depois, enriquecido,
Voar pra longe, pro céu
Rasgando em grande escarcéu,
As nuvens do paraíso.

Anúncios