Está dormindo, ou está acordado…?
Na UTI seus pensamentos vagam
E há quem pense que ali jaz inútil
Um tempo fútil, para quem só dorme.
Eu o esclareço, para que se informe,
Que o aneurisma que o jogou no leito
É provisório e só diz respeito
Ao corpo denso, porque a alma segue
Seu pensamento, sua reflexão.
É como um carro que está na oficina;
O condutor é sempre habilitado
Se um carro quebra um outro é comprado
Ou ganhado, ou alugado,
Pela misericórdia, que é a lei da vida.
Alma não enfarta, o que enfarta é corpo.
Alma não morre, só morre a matéria
De densidade bruta, e isto é coisa séria,
Porque os fatos estão registrados
E esteja morto, esteja aleijado,
Esteja sóbrio ou alienado
Os atos construíram tal momento.
Somos reação de cada nossa ação
Somos colheita do nosso plantio
Somos efeito  e também somos causa
Somos herdeiros só do nosso eu.
Males? Ninguém nos causa a não ser nós mesmos;
Dores, ninguém suponha que se tenha a esmo.
Somos um planejamento que deu certo
Mas por não compreender, nos faz, decerto,
Ver injustiça onde existe amor.
Doenças? Mais um pseudônimo de remédio.
É a dor que cura, porque nos limita,
Não deixa de agir se nos irrita,
Seguindo sua função, seu gesto regenerador,
Limpando o pó da alma, como espanador,
Numa catarse que vai preparando
Os tempos novos, aqui ou depois,
Porque o fim jamais existirá.
É um vir a ser que roda, roda, roda…
E vai sem fim, seguindo ao infinito.
O que hoje nos faz soltar um grito
Amanhã nos extasia de alegria
Somos parados, por não saber parar.
Somos freados por insistir em ultrapassar
O limite do racional.

Não temos tempo…!   Nunca temos tempo…!
Ora, o tempo. O tempo só existe hoje e agora.
Ninguém habita o tempo ontem ou o tempo amanhã.
São utopias.
Um deixou marcas de quando se orgulhava de chamar-se agora!
O outro aspira o mesmo galardão,
Mas nunca tem a certeza de atingi-lo.
Há um poder regulador que caminha sempre favoravelmente
Na direção das leis. Das leis eternas e naturais.
As mesmas leis que estão em nós e não as entendemos.
Que regulam desde um olhar até a paixão mais funda.
Dessa bondade que em todos abunda,
Mas como estamos ocupados não a vemos,
Não a sentimos, não a desfrutamos.
Ninguém chore, porque o choro não cabe;
Ninguém fique triste, porque a tristeza afronta a fé;
Ninguém se sinta ao desamparo, impotente,
Porque um filho de Deus, jamais estará abandonado.
Provas? Para que, se não sabemos compreendê-las…
Provas humanas, não servem
E as provas divinas não são para nós. Não é hora, ainda,
Para o homem comum, mais instinto que razão…
Basta crer, sem precisar ver, porque crer nasce da razão
E desejar compreender o ininteligível será angustiar-se de tédio.
Coisas exatas? Onde estão?
Exatas para quem se tudo é exato, se tudo é lei.
Amar é lei, porque sem amor há ódio, que gera ódio
Que só se anula com amor, amor que dá e nunca pede amor.
Momentos vividos, sofridos, desfrutados ou, para nós,  roubados.
Todos tem uma finalidade, porque o inútil roubaria o tempo das leis.
UTI? UTI…lidade, por certo, férias para a alma,
Que, cansada de domar o corpo, sente ânsias de repouso.
Depois, tudo volta ao normal;
Se não ao normal dos homens, certamente ao normal de Deus.

(Encontrei um amigo na praia, triste porque o irmão estava na UTI. Pensando no assunto, nasceu este poema.) 27/04/2000

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