Se eu fosse da sociedade
Que protege os animais,
Iria propor um decreto
Para cuidar desses tais.
Frango não se mataria,
A não ser com anestesia,
Sofrimento, nunca mais!

Contrataria psicólogo
Para o bode e pra o carneiro,
Pra convencer os coitados
A se entregar por inteiro,
Sem carregar qualquer mágoa,
Sem encher os olhos d’ água
Na hora do desespero.

O mesmo eu faria com a vaca
E o seu marido, o touro,
Quando eles fossem levados,
Forçados pro matadouro.
Consolaria o bezerro,
Que iria chorar no desterro
Ao ver tirar-lhes o couro.

Acalmaria o coelho,
Dialogaria com o pato,
Evitaria que alguém
Por lebre comesse um gato…
Mesmo o peixe, ao ser pescado,
Iria ser acariciado
Antes de pô-lo no prato.

Quando eu visse um  caranguejo
Me olhando com seu ferrão,
Trataria de acalmá-lo,
Sossegar-lhe o coração,
E antes de ser ensopado,
Ou tira gosto escaldado,
Lhe daria minha bênção.

Se fosse cobra ou lagarto,
Paca, tatu ou cotia,
Seria muito bem tratado,
Na minha mão não sofria.
Afinal, é meu irmão,
Que está em evolução
Nas lutas do dia-a-dia.

A carne tem toxinas
Porque o bicho, mesmo forte,
Sempre demonstra revolta
Diante da  triste sorte.
E nós engolimos tudo
O que o bicho, carrancudo,
Destila na hora da morte.

Qualquer animal usado
Para servir de alimento,
Deve ter nosso respeito,
Porque nos dá o sustento.
Mas espero, ainda este ano,
Ser mais um vegetariano
Como o cavalo e o jumento.

Se eles têm tanta força
E vivem só de capim,
O que é bom para eles
Deve ser também pra mim.
Nos legumes, nos cereais,
Frutas, verduras, que tais
Há nutrientes sem fim.

Mas quem não pode viver
Sem comer carne de irmão,
Enchendo a sua barriga
Com defuntos sem caixão,
Faça isso com critério,
Pra que esse cemitério
Não lhe cause indigestão.

Do Livro “O Grande Mar” – 2002

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