Com 20 mil de sinal,
Comprei um apartamento,
Dei mais oito prestações,
Saldadas no vencimento,
Porém a firma não entrega,
Porque a justiça, que é cega,
Protege o mau elemento.

Eu já movi um processo,
E reclamei no Procon,
Todos se comprometeram
A acertar a situação,
Mas na hora da verdade,
O cinismo e a leviandade
Barram qualquer solução.

Quem me vendeu o imóvel
Goza de muito conceito
E devido à boa fama
Nem precisa ser direito.
Faz festas pra todo mundo,
Porém sabe, lá no fundo,
Que não merece respeito.

Não menciono o nome dele,
Guardo a mágoa só pra mim,
Mas, um dia, lhes direi
Depois que chegar ao fim,
E lá, no apartamento,
Contarei  meu sofrimento,
Tudo, tintim por tintim.

Esse grupo, em João Pessoa,
Gente do tipo arbitrário,
Recebe, mas não entrega,
Faz todo mundo de otário
Eu também fui iludido
E ando muito aborrecido,
Pelo conto do vigário.

O pior foi que, inclusive,
Por acreditar no tal,
Vendi a casa onde eu morava
E assim me dei muito mal,
Recebi, não entreguei,
Mas ao dono não neguei
O seu direito real.

Dei-lhe logo a escritura
Da posse definitiva,
O que não se deu comigo,
Porque cheio de evasiva,
O vendedor procrastina
E o direito subestima
Não cumprindo a tratativa.

Com medo, então, de um  enfarte,
Pois sofro de hipertensão,
Busquei alguma maneira
De acabar com a agitação;
E, assim, com desprendimento,
Aluguei um apartamento
Pra resolver a questão.

Foi com essa providência,
Confiando no porvir,
Que pude me acomodar
E fui ali residir;
Entreguei a casa ao dono,
Já não mais perco o meu sono,
Agora posso dormir.

Reclamamos da violência,
Mas quem os outros maltrata
É também um terrorista,
Fingido de magnata,
Porque a esperada paz,
Acreditem, não se faz
Com truculência e bravata.

Tudo aquilo que alguém ganha
Agindo como um meliante,
Precisará devolver
Agora ou mais adiante.
E, o pior, lá no futuro,
Terá de pagar com juro,
Não será mais petulante.

Mas esses tipos que pensam
Que tudo podem comprar,
A justiça, os empregados,
Até as pessoas do lar,
Dirão, lá, na frente, um dia:
– Eu juro que não sabia
Que Deus iria me cobrar.

Isso se deve a uma lei
Chamada ação e reação,
O que se faz, se recebe,
A vista ou a prestação.
Paga-se a conta, amiúde,
Com dinheiro ou com saúde,
Até o último tostão !

Essa certeza é que anima
A que sejamos decentes.
Sentimos muita piedade
Desses tais irreverentes,
Porque, ao final do rolo,
Todo espero vira tolo,
Quebra a cara e range os dentes !

Depois de ser condenado a pagar mil reais por dia, o vendedor entregou o apartamento!

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