Tenho setenta janeiros
Porém nasci num novembro;
Lembro pouco dos primeiros,
Mas dos últimos me lembro
Pois da vida sou um membro,
De uma história itinerante,
Igual ao judeu errante
Sem terra, paz ou respeito,
Mas me dou bem desse jeito
Desde quando eu era infante.

Trinta e quatro foi o ano
Do desembarque na Terra,
No planalto, não na serra,
Bem no espigão da Paulista,
No Bexiga dos artistas,
Dos teatros, das cantinas,
Lugar que, entre serpentinas,
Desfila a Vai-Vai, a escola,
Dos velhos e rapazolas
Das coroas, das meninas..

Eu gostei de ter nascido
Na minha terra querida
Porque tive boa vida
Apesar de ter sofrido;
Todo mal foi esquecido,
Segui a minha diretriz
Lá onde todo mundo diz
Que é a terra da garoa,
Hoje vivo em João Pessoa
Onde também sou feliz.

A terra que nos abraça
Merece o nosso carinho;
Nos dá a vida e um pouquinho
Do destino que Deus traça.
E caso haja ameaça,
Saibamos tirar proveito
Da desgraça e dar um jeito
De espantar a solidão,
Pra não cairmos no chão
E não perder o respeito.

Poema de 2004

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