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Já foi charmoso esse senhor que passa,
Quando ele apenas vinte anos tinha,
Ao desfilar, nas tardes, pela praça,
Com seus cabelos negros, de pastinha.

Trazia um porte sem nenhuma jaça,
Quando as moçoilas, cheias de picuinha,
Analisavam seu andar com graça,
Que demonstrava sempre garbo e linha.

Hoje está velho, de imagem caída,
Porém mantém ainda alguma graça,
No seu final, neste apagar de vida…

E quando passa, às vezes, pela praça,
A suspirar a velha diz, sentida,
Já foi charmoso esse senhor que passa!

Nota – Paródia do soneto “Vês?” de Américo Falcão

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Dizem os homens que a Lua é o satélite da Terra. Mas os poetas garantem que ela é um piercing no umbigo do infinito ou prateada tatuagem no ventre do firmamento.

Dizem os homens que a água, H2O, é uma substância líquida, insípida, inodora e incolor. Mas os poetas afirmam que ela é o sangue da Terra bombeada pelo coração da  natureza.

Dizem os homens que as músicas são acordes feitos de sete notas. Os poetas, todavia, dizem que elas são a voz das almas, o som da vida e o soluçar da inspiração. São os decretos das mensagens e as leis que regem a suavidade e a harmonia.

Dizem os homens que as estrelas são sóis, planetas e cometas. Mas os poetas dizem  que elas são os pirilampos dos jardins do Éden a iluminar a escuridão dos tempos, das esperanças e das utopias.

Dizem os homens que a Terra é um pequeno planeta do nosso sistema solar. Mas os  poetas definem a Terra como o berço de uma família feita de almas sofridas que lutam  para chegar ao seu Criador; que ela é o lar dos desgraçados que se perdem no  emaranhado da sua insignificante e pretensiosa grandiosidade.

Dizem os homens que a chuva é a gota d’água que se desprende das nuvens. Os  poetas sabem que a chuva é a lágrima que escorre dos olhos de Deus ao chorar de amor  pelos homens. É a emoção do Pai diante do filho indefeso que ainda não sabe pensar.

Dizem os homens que o mar é grande porção de água salgada. Para os poetas o  mar é o albergue dos rios que para ele correm apressados, livrando-se do jugo das  margens, para ganhar a liberdade que se esconde no íntimo da sua imensidão.

Dizem os homens que dormir é repousar o corpo para refazê-lo. Os poetas
garantem que dormir é libertar a alma para que, em sonhos ou desdobramentos, ela  viaje ao infinito na busca de alegrias desconhecidas e imprevisíveis. Para o poeta, o sono é a alforria do espírito que viaja na busca dos segredos do espaço para depois voltar com  novas inspirações, camufladas nos sonhos muitas vezes ininteligíveis.

Dizem os homens que escrever é expressar idéias. Para os poetas, escrever é
introduzir conceitos na virgindade dos vergéis das folhas brancas e inertes, enfeitando-as de charme como a uma debutante que desabrocha para a vida no alvorecer dos quinze  anos.

Dizem os homens que o trabalho serve para o sustento. Mas os poetas nos
segredam que trabalhar é enriquecer o espírito, aprimorar dons e ganhar experiência, porque transforma em sábio o homem comum!…

 

Quando nos íamos à escola,
Levávamos na sacola,
Desde os tempos de criança,
Além de livro e caderno
Um sentimento tão terno
Todo cheio de esperança.

Lá víamos os professores
As senhoras e os senhores,
Dispostos a dar de si
Eu me lembro muito bem,
Por isso é que eu fui além
E hoje me encontro aqui.

Lembro-me de cada face
E uma expressão me nasce
De saudade indescritível…
Dona Zezé, seu Gentil,
Professores do Brasil
Com ordenado sofrível.

Mas sem pensar no salário,
Agindo qual missionário,
O professor segue em frente,
Por isso é que eu oro agora
E rogo a Nossa Senhora
Que cuide deles pra gente.

O que crê que com a morte acaba a vida,
Não prepara, ao viver, a boa morte;
Não tem nunca a conduta que é devida,
Por isso é que ao morrer lamenta a sorte.

Quem na vida não tem nem sul nem norte,
Nunca pensa na hora da partida,
Acaba por chorar e não ser forte,
Quando sai de sua carne falecida.

A morte será sempre um coroamento
Ornado de brilhantes se, na Terra,
O homem cultivou desprendimento.

Mas se foi a seus bens sempre atrelado,
E o amor no seu peito não se encerra,  
Ficará preso ao mundo, escravizado!…

Todo homem deve ter na vida um sonho,
Que consiste em buscar felicidade…
É difícil, porém, na humanidade,
Sentir-se uma alegria e ser risonho.

Vejo hoje o ser humano tão tristonho,
Pois em volta ele enxerga só maldade,
Aviltamentos, muita crueldade,
Neste quadro de vida assaz medonho!…

Mas o íntimo precisa preservar,
A centelha divina que ele porta,
Para seu Deus interno não negar…

Com fé, com segurança e diretriz,
O resto, até a maldade, pouco importa,
Porque ele poderá ser bem feliz!

Por favor, seu doutor, dê-me o emprego;
Preciso sustentar minha família,
Tenho mulher, dois filhos e uma filha;
Prometo me empenhar com todo apego!…

O fantasma maior é o desemprego
E embora o presidente em sua cartilha
Diga que tudo está uma maravilha,
Confesso que eu não tenho mais sossego.

Quando os filhos que choram pedem pão,
Fica doido no peito o coração,
Pela impotência ante os apelos seus…

Por isso é que eu lhe peço, humildemente,
Respeite, homem, a lágrima da gente:
Dê-me esse emprego, pelo amor de Deus!

A imagem acima é um risco para pintura em óleo sobre tela, de Leonardo da Vinci.
Boletim Informativo "Tribuna Literária"
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