Onde estão os poetas que faziam
Da sua palavra a própria baioneta,
Que nas ruas e átrios defendiam
Essa gente que tinha a pele preta?

Viviam a lamentar a triste sorte,
Procuravam acabar com a escravidão,
Porque essa vida ainda era de morte,
Mesmo após decretada a abolição!…

Nos dias de hoje o verso está covarde,
A voz do poeta agora está calada,
A chama do ideal já não mais arde,
E a garganta fechou-se, sufocada!…

Será que foi cansaço ou desistência
Diante desse poder autoritário,
Que não tem pelo povo nem clemência
E avilta a cada dia o seu salário?!…

Onde é que estão os abolicionistas,
Os poetas que enfrentavam a opressão
Fossem dos democratas, comunistas,
Ou sem partido, com abnegação?…

O povo está jogado e o ideal
De ser feliz um dia, está distante,
Porque o senhor de hoje é o capital,
Que para o povo nunca é o bastante…

Se o Senhor dos senhores vier ao mundo
E cobrar de quem manda e é insensível,
Extirpando esse sentimento imundo,
Evitando uma dor triste e sofrível,

Há de ter só surpresas porque, agora,
Os valores estão adulterados,
As escolas não são como as de outrora
Pois só atendem os que têm lugar marcado.

Vão criar faculdades a mancheias,
Para ter muito mais homens formados
Que farão só concurso e, volta e meia,
Tentarão um lugar privilegiado.

Despertai oh! poetas, que já mortos,
Podem vir, pela psicografia,
Ditar regras, pelos controles remotos,
Ensinando os decretos da alforria…

Noutros tempos, somente a pele escura
Era o motivo para o sofrimento;
Hoje, nem mesmo tendo toda a alvura,
Vai livrar-se de igual aviltamento!…

Os quilombos são hoje as mil favelas,
Onde os governos são os marginais,
E onde há senzala azul, verde e amarelas,
Sonegando do pobre os ideais!…

Encontramos na mídia mil matérias
Que falam que o Brasil cresce demais,
Pena que seja à custa da miséria
Do aposentado e de outros que tais!

Criando cesta isto, cesta aquilo,
O vale refeição, leite e transporte,
Ajuda o vagabundo em grande estilo
Deixando quem trabalha à triste sorte!…

Agora só se fala no pré-sal,
Que vai dar ao Brasil muito dinheiro
E até prestígio internacional,
Mas não para este reles brasileiro!

Onde está o hospital para o doente
Ou a escola do homem que é do mato?
Só resta para a fome do indigente
A comida do lixo para o prato!…

Seriam os poetas destes tempos
Uns covardes? Ou sentem só preguiça
De lutar contra tantos contratempos,
De brigar no combate à injustiça?

Os poderosos nos cetins macios,
Alcoviteiros da legislação,
Nem percebem os estômagos vazios,
Ou a miséria da população!…

Só a taxa do dólar e a cotação
Da bolsa de valor, em todo mundo,
Interessa, é a maior preocupação,
Isolados do homem moribundo.

Façam versos, poetas, registrando
O que esses poderosos dão de “heranças”
Para cada um de nós que vai lutando,
Tentando fazer homens das crianças!…

Ainda que sua voz não seja forte
Abra a boca, espargindo uma opinião,
Porque já não podemos ver na morte
Um empecilho à nossa obrigação.

Aos famintos, só dão as loterias,
Que vendem como peça de ilusão,
Porque ainda desconhece a maioria
Que a chance nisso é de uma em um milhão!…

Enchem-se os cofres com as belas telas,
Completados com jóias que são caras,
Para servir de enfeites às donzelas
De sangue azul, as de famílias raras!…

Porém não sabem eles que o tecido,
Nem servirá de cobertura à morte
Pois no caixão as flores já têm sido
O ornamento certo, o único aporte!…

E as jóias que se usam noutras plagas,
-No reino que é divino e de justiça –
Geralmente é um enfeite feito em chagas,
Tão raro até nas conhecidas missas!…

As de ouro ficam só nos inventários,
Criando a desventura e a descrença,
Quando não mofam dentro dos armários,
Semeando a discórdia e a desavença!

O petróleo é nosso, já dizia
Nosso velho Getúlio lá dos pampas,
Porém devido ao preço de hoje em dia,
A nossa parte cabe em poucas guampas…

Se na verdade esse petróleo é nosso,
Por que custa tão caro este óleo vil?
Nem pô-lo em meu isqueiro agora eu posso,
Como vou orgulhar-me do Brasil?

Também é nossa, dizem, a Amazônia
Essa grande floresta do planeta,
Mas diante de tanta parcimônia,
Minha planta é aquela de gaveta!…

Nem rezar mais podemos, porque à noite
É hoje dos bandidos, marginais,
Que agridem o triste povo em duro açoite
Quando ele vai rezar nas catedrais…

Nas catedrais e nas igrejas toscas,
Nos templos evangélicos, nos centros
Espíritas, que agora estão às moscas
Pois o medo se espalha lá por dentro!…

Quando virás, Jesus, de novo à Terra,
Espantar vendilhões desses palácios,
Arrancar os tesouros que se encerram
Na modernice dos gazofilácios?

Como são esperanças já perdidas,
Escrevam, por favor, na minha lousa:
“Aqui jaz quem bastante amou a vida,
Mas nem mesmo na morte hoje repousa…”

Pode pôr quem quiser ainda uma frase,
Que autorizo bem antes de voar:
Do petróleo ele foi dono – quase –
Da Amazônia não viu nem mesmo o  ar!

Assim, nesta poesia inexpressiva,
Só deixo registrado o meu protesto.
Estou velho, não tenho alternativa;
Peço-lhes, por favor, façam o resto!…

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