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Se visitar-me um Espírito algum dia,
E não disser a mim sequer seu nome,
E logo após deixar recado some,
Não pensem que se trata de utopia…

Talvez quisesse ele matar-me a fome,
Suavizando-me o mal da nostalgia,
Portando amor nalguma alegoria
E poupar-me da dor que me consome.

Seriam dos recados – os tais cifrados –
Que os homens, porque estão inda embotados,
Não podem compreender como verdade,

Mas sei que a realidade do contato
Fará com que me sinta eu, de fato,
Um ser dos imortais da eternidade…

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Morreu meu pai quando chegava a primavera:
Cinquenta e sete, era setembro, vinte e dois…
Eu era um jovem, pois nem vinte e três fizera;
Lembro-me bem! Eu me senti triste depois,

Porque bastante sofrimento ele tivera;
Fora operado, mas nunca sarara, pois
Tinha ulcerado, como pouca gente ulcera,
Nada podia ele comer, nem mesmo arroz…

Na Santa Casa, era o domingo da visita,
Ao meio-dia já senti coisa esquisita
Quando esperava ali calado, entristecido…

Do quarto andar, olhando embaixo o necrotério,
Nunca pensei que ali meu pai, num refrigério,
Jazia inerte, porque às dez havia morrido!…

Viver não é somente respirar,
Alimentar-se e passear bastante,
Estudar, progredir, ser deslumbrante,
Muito dinheiro e bens amealhar…

Viver não é só ser exuberante
E do corpo e da estética cuidar,
Não é somente o físico malhar
Para ser um alguém muito elegante!

Viver é preparar-se para um dia
Deixar na Terra toda esta utopia
E comportar-se aqui como um cristão.

Viver é ser amigo e solidário,
Tratando bem o anônimo operário,
Como trata você seu próprio irmão.

Progresso ou retrocesso?

  

No meu tempo, e posso falar assim depois de viver setenta e quatro anos, o mundo andava mais devagar. A hora tinha de verdade sessenta minutos, o dia vinte e quatro horas e o ano trezentos e sessenta e cinco dias e seis horas. Uma década durava dez anos e um século, cem. Isso no meu tempo!

O progresso no meu tempo, ia de bonde, de carroça, de ônibus. Nem de automóvel ele andava, antes do fim da segunda guerra mundial. Era um tempo em que uma guerra acontecia em 1914 e a outra em 1938. Tínhamos tempo para respirar. Agora elas acontecem de hora em hora. Basta ligar a TV para ver a guerra. Em qualquer canal, porque o mundo todo é uma guerra! Árabes contra judeus, traficantes contra pessoas desesperadas, motoristas contra pedestres, banqueiros contra clientes, governos contra contribuintes, Big Brother contra a sociedade, sequestradores contra os homens de bem, polícia contra a população, hospitais contra pacientes e quantas mais nos quisermos…

Não tínhamos internet, celular… Nem telefone desses comuns, os fixos, nós tínhamos. O primeiro que eu tive recebi vinte e cinco anos depois que pedi. E paguei caro em vinte e quatro prestações… Mas sobrevivi e não deixei de dizer nada do que precisava ou desejava, e não sofri de depressão. No meu tempo ela não havia sido inventada! Não falei pelo MSN ou pelo Orkut; falei olhando olho no olho. Dançava segurando a dama, de rosto e corpo colados, e assistia ao futebol. Aquele em que o jogador ganhava um corte de casimira ou um sapato de cromo se fizesse gol ou fosse o melhor do jogo.

Hoje não. A cada momento uma nova versão do Windows, o celular que manda i-meio, tem televisão, música, tira fotografia, envia torpedo e vai matando você, aos poucos, de radiação e estresse… Virou um adereço que rastreia você, onde estiver. E para tirá-lo de você, o bandido não titubeia em matá-lo. Ele também é louco por celular!…

Eu não tinha muitos amigos, mas eram reais. Podia abraçar e, se preciso, brigava de soco. Jogávamos com bolas de gude, futebol, empinávamos pipa e andávamos de bicicleta. Magrela, mesmo, não era bike… Os vírus eram os da gripe, sarampo, catapora. Não eram os trojan ou o cavalo de troia. As namoradas não eram virtuais… O preservativo não estava vulgarizado, transformando o sexo em banalidade inconsequente. Hoje, se não contrair doença e não engravidar, vai em frente! É a prioridade um da molecada. Estudar para ser gente, é só um detalhe… Tudo incentivado pelos pais. O menino deve ser um grande machinho, sarado, e a menininha uma modelo e manequim. Mesmo burrinha como se vê por aí. 

Para sacar no banco ou pagar uma conta era com cheque ou dinheiro. Hoje tem os “card” que permite a você pagar depois. Mas se não tiver saldo, pobre de você. Juros de 150% ao ano, nos bancos mais generosos. No meu tempo era ao contrário. Você depositava dinheiro no banco e eles pagavam juros a você. Na conta corrente mesmo… Coisa de uns 6% ao ano. E nem havia inflação. Hoje para ter conta no banco você paga taxa de manutenção, paga pelo talão de cheque e para saber o saldo.  Só não paga, por enquanto, para entrar no banco. Mas eles não querem que você entre. Por isso puseram caixas eletrônicas do lado de fora… Cliente que chega até o caixa é persona non grata. O curioso, se podemos chamar assim, é que já estão cobrando pelo uso da máquina eletrônica. Somos como o boi que vai para o matadouro. Criaram um roteiro de onde não podemos sair. Nem voltar!…

Para ir ao trabalho, tomávamos um ônibus. Carro só de praça ou de gente muito rica. O ar era bom de respirar e dava para marcar hora, e cumprir, porque a rua era vazia e a condução andava bem. Além disso, a vergonha era maior do que hoje e palavra era coisa séria. Quem prometia cumpria. Hoje a cara de pau é o normal na face das criaturas…

Mas o homem não sabe ser simples, nem se satisfaz com o trivial. Hoje ele usa sapato antiestresse, tênis que só falta fazer eletrocardiograma, com amortecedores para evitar impacto no joelho. As comidas são controladas por nutricionistas para saber do ABC das vitaminas e dos sais que entram no organismo. Ora a manteiga é ruim, ora o que faz mal é a margarina. Só pode comer diet, light, sem gordura transgênica, sem sal, 0% de colesterol, etc. E nunca houve tanta gente gorda, triste e doente como agora. A hipertensão está generalizada até mesmo nas crianças.

Neste mundo de tecnologia espacial, morremos de dengue, de tuberculose, de lipoaspiração, de doenças das coronárias, de malária e de maleita, de virose (nome genérico para tudo o que os médicos não sabem o que é), de depressão… Morremos também de raiva, de ódio, de rancor, impaciência e traição. O descaso e o abandono são também graves doenças provocadas pelo desamor. O egoísmo venceu a solidariedade e o orgulho derrotou a gentileza…

Nós estudávamos em grupo escolar. Sabíamos português, fazíamos redação, dissertação, narração com correta aplicação da gramática. Não tínhamos os corretores de textos da internet. Tínhamos que conhecer as regras e saber quando usar a ênclise, a próclise e a mesóclise. Hoje eles reformam a língua para tirar os acentos que ninguém sabe usar. Sabíamos de cor as tabuadas. Desde a do 2 até a do 9. Hoje todos usam calculadora até para multiplicar por 10 e fazer contas para saber o valor do troco. Quando não contam nos dedos e ainda erram na conta. Afinal, são apenas dez dedos. E usar os do pé é um tanto deselegante e desconfortável.

Atualmente, as fornalhas estão despejando na praça analfabetos com diplomas de nível superior. Não passam no exame da OAB e os das outras áreas, se forem examinados pelos Conselhos da sua profissão, terão a mesma sorte. A ideia é ter diploma universitário não para exercer a profissão que deveria ser a vocação do estudante,  mas para fazer concurso público e alimentar-se na teta do governo, com salário acima da média, garantia de não ser despedido e aposentadoria com valores privilegiados. Nem precisa ser eficiente.

Hoje todos vivem inconformados. Mulher de peito pequeno quer implantar silicone. As de seios grandes querem operar para reduzir. Cuidam do bumbum, fazem peeling, lipo, plástica, colocam apliques, enchem-se de peças de metal chamadas piercing no lado de fora e no lado de dentro do corpo. Na língua e nas intimidades! Enchem seu corpo de desenhos e figuras com nome de namoradas e namorados que não duram uma semana. Uma autoagressão  por onde penetram bactérias que vão causar doenças.  

As pessoas estão amargas, arrogantes e só pensam em maquiar-se do lado de fora. Cada vez mais bonitas no exterior, embora artificialmente, e mais feias por dentro. Os concursos de beleza não premiam a mulher, mas a tecnologia. O troféu deveria ir para os cirurgiões e não para as misses.  Só que elas não percebem que essa beleza é de curta duração. Vem a velhice, a degeneração, o acidente, a enfermidade e só vai restar o que houver na intimidade, nos acervos da alma. Se nada houver, então nada restará. Apenas uma embalagem vazia!

Os sentimentos foram esquecidos. A solidariedade fica para depois. Sai da frente do carro porque ele passa por cima de você. Os motoristas se esquecem que também são pedestres. Os jovens que não dão lugar para os idosos na condução, esquecem que ficarão velhos. Cada um cuidando de si. Ninguém dá um passo atrás para que o outro entre primeiro. O estoque de “obrigado”, “dá licença”, “por favor”, “desculpe”, esgotou-se na praça. Por isso eu pergunto, já que sou de outro tempo: houve progresso ou retrocesso? Tecnologicamente, dirão, é óbvio que houve grande progresso. Mas valeu a pena em prejuízo da existência com deterioração da qualidade de vida?  Estamos vivendo melhor ou suicidando-nos de forma globalizada?

Em inúmeras oportunidades já nos informaram que o tempo na Terra é um mero estágio de aprimoramento espiritual. Se vamos levar só o que pudermos carregar, talvez fosse mais inteligente investir nos bens permanentes e não jogar tudo nos valores provisórios. Devíamos investir  nos  tais tesouros do Céu de que  nos falou o orientador e Mestre Jesus Cristo. Seria bom se mais pessoas, inclusive os espíritas, acreditassem nisso!…

Ao finalizar esta análise, lembro-me do apreciado e lúcido escritor e filósofo Hubert Rohden, quando disse mais ou menos o seguinte: os bens provisórios não podem ser levados para a eternidade porque serão retidos como contrabando na fronteira entre os dois planos.

Tenho o privilégio de viver hoje entre esta louca humanidade, sem esquecer que vivi diferentes tempos que tinham um misto de dor e prazer. Se faltava o que comprar, mesmo para quem tinha dinheiro, sobrava um tempo que hoje não se tem mais. Víamos a noite chegar, brincando nas calçadas, conversando e formando a mesa do jantar com todos os familiares. Faltava recurso, mas sobrava convivência. Hoje, os recursos são mais amplos, mas nas casas em cada quarto há um departamento isolado e independente como uma seção autônoma de propriedade e gerência de quem ali vive. Com seu celular, TV e computador, de onde conversa com todo o planeta, esquecendo-se que no quarto ao lado moram seus pais e seus irmãos…

Neste momento de saudosismo, lembro-me do filósofo Ataulfo Alves: “Eu era feliz e não sabia!”

 

Octávio Caúmo Serrano, paulistano, contador, poeta e escritor, nascido em 1934, vive em João Pessoa desde 1997. Autor de sete livros entre prosa e verso. Recebeu o título de Cidadão Paraibano, conferido em 10/06/2005, e a Medalha Augusto dos Anjos, ambos por iniciativa do Deputado Rodrigo Soares.

 

NOTA – Texto publicado no livro Leituras Diversas – Crônicas, Ensaios e Contos, da Idéia Editora, lançado no SEBRAE – João Pessoa – PB em 26/08/09.

A imagem acima é um risco para pintura em óleo sobre tela, de Leonardo da Vinci.
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