Às vezes era lá pelas dez horas,
Outras vezes beirava meia-noite,
Andando em meio ao barro eu vinha agora
Da escola sob o frio que era um açoite…

O breu da escuridão até assustava,
Já que eu era um menino em formação,
Por isso cada vulto que passava
Tinha a imagem sinistra de um ladrão.

Os tempos eram bem mais acalmados,
A cidade não era tão violenta,
Mas o mal sempre esteve ao nosso lado,
E o bem constantemente ele afugente.

Nos dias em que a chuva castigava
E a lama impregnava-se em minh’alma,
No intenso lamaçal eu navegava.
E para não cair, ia com calma…

Às vezes, todavia, esse cuidado
Não permitia que eu ficasse em pé
E eu escorregando enlameado,
Esconjurava a minha pouca fé.

O silêncio da noite era cruel
E eu muito tenso, sem respiração,
Caminhava fazendo o meu papel
De alguém que busca a sua formação.

Os pais, dois operários, sem cultura
Mas uma enciclopédia de decência,
Esmeraram-se por esta criatura
Para não terem drama de consciência!…

Se hoje tenho meu lar, minha família,
Meu conforto e tudo o que é saudável,
Foi por eles criarem esta trilha
Do bom caminho e eu sendo responsável.

Não fui mais longe por incompetência
Porque por eles eu seria um doutor
Um homem de destaque na ciência
Um engenheiro, com todo louvor…

O pai que era um pedreiro me dizia:
-Meu filho não será nunca enganado
Pelo operário esperto que sabia
Que o engenheiro é somente alguém formado.

Dê a ele uma colher, massa e tijolo
E peça-lhe que assente para ver
Como lhe falta jeito e até miolo,
Só tem a teoria, não saber fazer.

São lições recebidas de meus pais,
São palavras que guardo na memória,
E hoje quando estou nos dias finais,
Lhes conto revivendo a minha história!

Lá por 1950, na tradicional Vila Guarani, hoje no Metrô Conceição, na capital de São Paulo.

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