Eu sou do tempo em que o rádio
Tinha apenas três botões:
Um ligava, um aumentava,
Outro mudava estações.

Nem ondas médias nem curtas,
Ondas longas simplesmente
Pegavam só até na esquina,
Mas alegravam a gente.

Novelas imaginadas
Conforme a sonoplastia
E o futebol sempre bom;
Jogo ruim jamais havia.

O locutor irradiava
Com tanta velocidade
Que o jogador nem podia
Acompanhar, na verdade.

Havia o rádio galena
Que tinha fone de ouvido
Pegava só uma estação
E bem cheia de ruído.

O rádio a pilha somente
Chegou bastante depois…
Até que veio o transistor,
E desses eu tive dois.

Sou do tempo em que a TV
Era toda chuviscada
Que se punha esponja de aço
Na antena toda enroscada.

Imagem em branco e preto
Que sumia de repente
Mas exibia em sua tela
Programação mais decente.

O mundo ia devagar
Mas tudo era mais direito
Os filhos obedeciam
E havia bem mais respeito…

Discos de 78
Rotações, muito pesados,
E só cabia uma música
Em cada um dos seus lados.

Para tocar, gramofone,
Uma agulha a cada vez,
O que aumentava a despesa
E os gastos do fim do mês.

Não havia estereofônico
Era mono e olha lá
Que nem artista famoso
Cantando podia enricar.

O carro que era veloz
Corria a 30 por hora
Ninguém era atropelado
Nem morria como agora.

O telefone falava
Só pedindo interurbano
E para ter um em casa
Demorava uns vinte anos.

Eu sou do tempo em que as letras
Tinham enredo coerente
Sem rap, funk nem pank
Que agridem o ouvido da gente.

Quem me escuta dizer isso
Vai afirmar que é “breguice”,
Que eu já estou caducando
Porque cheguei na velhice.

Peço-lhes que parem o mundo
Porque eu quero descer,
Quero voltar ao passado
E lá de novo viver.

Quero encontrar Chico Alves,
O Orlando e o Pixinguinha,
Noel Rosa e Ataulfo,
Além da grande Isaurinha…

Sem falar de Silvio Caldas,
Carlos Galhardo, Noel
E nem dos bambas do samba
De grande Vila Isabel.

Quero voltar ao Bixiga
Do inspirado Adoniran
Ver a Vai Vai desfilando
Desde a noite até a manhã.

Se eu não voltar ao passado
Virei aqui no futuro
Quando tudo será humano
Sem tranca, cadeado ou muro.

Virei novamente ao mundo,
Já em regeneração,
Pois me cansei de viver
Com tanta prova e expiação.

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