Convidados pelo seu dinâmico presidente, José Irenaldo Jordão Quintans, na noite de 16 de junho deste 2010, estivemos na sede do Sinduscon de João Pessoa para assistir, como parte das comemoração pelos trinta anos da entidade, ao lançamento do livro sobre construção civil, nas suas diferentes etapas e implicações, com o título “Construção Civil: Uma Abordagem Macro da Produção ao Uso”, distribuído gratuitamente.
Após excelente palestra de apresentação do livro e agradecimento ao colegiado de autores, o presidente cedeu a palavra a algumas autoridades que compunham a mesa e finalmente foi servido um coquetel de confraternização para toda a classe que forma a construção civil, passando pelos projetistas, produtores, intermediários e fornecedores, além das entidades de classe ligadas a esse importante segmento industrial brasileiro.
Para nós, além do prazer de estar em tão importante reunião, foi um instante de meditação e volta às origens.
Nosso pai, nascido em Ribeirão Bonito, em São Paulo, em 1903, após trabalhar como operador de tear na Fiação de Tecidos São Carlos, na cidade do mesmo nome, não pode ser promovido à chefia porque, apesar da competência que o qualificava para o cargo, ele era analfabeto. Envergonhado, demitiu-se. Comprou uma colher de pedreiro, um prumo, um nível, uma desempenadeira e foi ser operário da construção civil. Foi o que fez a vida inteira, a partir desse episódio.
Na minha infância, entre os dez e treze anos, quando o pai já trabalhava por conta própria, fui seu servente. Fato comum nas famílias de baixa renda. Um dia, em meio a uma obra, abandonei-o para atender a uma entrevista de office-boy que o dono da obra havia me arranjado. Meu pai ficou muito zangado comigo naquele dia. E ele gostava tanto de mim!… Mas logo passou e ele continuou me amando muito. Era meu maior fã, apesar das minhas limitadas qualidades.
Enchendo-se de coragem, meu pai foi um micro construtor. Justifica-se o micro pelo seu inexistente acervo financeiro e pelo porte físico – 1,65 de altura e menos de 60 de peso -. Sua empresa era formada de dois sócios: ele e um irmão mais velho – Albino – ,sem empregados. Pelo menos como patrão e empregado de si mesmos eles nunca se viram envolvidos com as habituais causas trabalhistas que nascem hoje do desentendimento entre construtores e operários, embora o que devesse existir é harmonia porque o interesse é comum e o bom entendimento melhoraria o padrão do relacionamento e dos resultados. Em todos os níveis.
Meu pai recebia do proprietário um terreno e um projeto e ali edificava a moradia do patrão: ele e o irmão cercavam a área, furavam o poço – raramente havia água encanada na periferia onde mais trabalhavam – cavavam os alicerces, faziam a sapatas, levantavam paredes, cobriam, rebocavam, faziam forros de estuque, assentavam as peças de banheiro e cozinha, azulejos, colocavam pisos de tacos ou cerâmica, faziam a parte elétrica, hidráulica e a pintura. E não havia buchas, canos de pvc e outras facilidades. Chave na mão, pronta para morar!  Fizeram várias dezenas delas!
Um detalhe: Entre 1941 (38 de idade) e 1957 (quando faleceu aos 54 incompletos) ele viveu doente com terríveis crises de úlcera com dores muito fortes. Mas isso nunca foi motivo para ele perder um dia de serviço. Afinal, nada de aviso prévio, indenização, décimo terceiro, salário desemprego, auxílio doença, férias e outras mordomias dos dias correntes. Mesmo enquanto trabalhava para terceiros, não havia direitos. Ao final da obra o mestre ou o engenheiro agradecia e dispensava a turma que no dia seguinte começava a procurar novo trabalho.
Foram tempos duros, período da segunda grande guerra, com escassez de alimentos, moradia, condução, escolas, etc. Mas isso não impediu que ele e a mãe, que completava o salário da família lavando e passando para terceiros, nos dessem algum estudo para que hoje tenhamos uma condição bem diferente da deles. Hoje nos damos ao luxo de ajudar pessoas porque o que temos para viver está além do que necessitamos. Ironias de cada vida que só Deus pode explicar.
No Sinduscon enquanto eu ouvia falar em tecnologia, desenvolvimento sustentado, cadeia produtiva e tantas outras expressões da tecnologia moderna eu me lembrava do meu pai. Tinha um chapéu e uma calça velhos para trabalhar de pedreiro e uma calça e um chapéu novos para ir e vir do trabalho. No sábado, depois de  trabalhar até as quatro da tarde, faziam uma parada no barbeiro para tirar os pelos do rosto e, de vez em quando, aparar os poucos fios de cabelo que ainda restavam em sua cabeça plena de sonhos e de idéias, impossíveis de serem realidade. Seu destino, nesta vez, era outro!
Que saudades eu tenho do meu pai! Que gratas lembranças eu tenho das lutas da minha mãe!
Que Deus os abençoe onde estejam: por lá ou por cá!…
Parabéns ao Sinduscon pelos trinta anos de expressiva existência e um agradecimento a todos os que compõem a entidade pela maneira fidalga como recebem os visitantes.

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