Eu via as uvas crescendo
Nos galhos dos parreirais;
Via as abelhas sorvendo
Seu mel, junto com os pardais,
E os bagos desenvolvendo,
Cada um crescendo mais…

Era uva da rosada
Tão doce quanto é o mel,
Que minha mão lambuzada
De açúcar nesse vergel,
Lembrava a uva plantada
Na minha terra: a Isabel!

Isabel é da miudinha
Para o vinho é especial…
Tinha uma gleba inteirinha
Cuidada, sem matagal,
Num sítio que a gente tinha
Bem perto da capital.

Quando chegava a colheita
Todo mundo se encantava,
Formava turma perfeita
Quando o grupo se entrosava,
Tudo seguindo a receita
Porque o vinho já esperava.

Era só pisar a uva
Num cocho feito em cimento
Que o néctar como chuva
Despejava em corrimento
Como choro de viúva
Saudosa no seu lamento.

Depois era só envasar
E esperar sem aflição
Já podendo antecipar
A boa degustação,
Enquanto ele descansava
Dormindo no garrafão!…

Por fim vinha o arrepio
Do brinde com minha gente.
Um bom queijo e em dia frio
Servia-se o vinho quente,
Sinto ainda fugidio
O gosto vindo da mente…

São fatos de quem viveu,
Em dias simples, normais,
Um tempo que já morreu
E não volta nunca mais,
Mas hoje os recordo eu
Pois foram muito especiais!…

Nossas vinhas no Sítio da Capela, em São Roque-SP

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