O tédio (The clown – o palhaço)
Heinrich Heine – 1797 (Dusseldorf) – 1856 (Paris)

Venho consultá-lo doutor
A enfermidade que me punge e que me martiriza,
Negro cancro que nunca cicatriza…
Creio curareis o mal insano
Que me atrofia o cérebro e me esmaga
Tenho um coração que não palpita,
Uma cabeça que não pensa, não divaga.
Um negro tédio me envenena os dias,
Tédio que mata, tédio que assassina,
Como os beijos vendidos nas orgias
De uma intérmina noite libertina.
O sábio, meditava em face do cliente:
Tem razão, o senhor está muito doente.
Porém essa doença estranha que o devora,
Comum e conhecida nos tempos de agora,
Uma simples emoção, um leve sentimento,
Operam num momento o milagre da cura.
Diga-me: Nunca amou?
Nunca sentiu seu peito amargurado bater de encontrão
Ao coração apaixonado?
Não!
É preciso aturdir-se e mover-se, meu caro,
Em busca de um prazer, mas de um prazer bem raro…
Já foi ao oriente, à Grécia, à Terra Santa,
Lá onde tudo fala e tudo canta
Um passado já morto de mortas tradições,
Que amesquinham, no entanto, as novas gerações?
Viajei, viajei como judeu errante da lenda secular
E entre tantas mulheres que meu lábio beijou
Nenhuma só, sequer, deixou de ser para mim uma estranha mulher.
Voltei como partira; o mal é sem remédio;
Cura-se tudo, mas não se cura o tédio.
Vá ao circo, senhor,
Talvez a arlequinada do palhaço querido
Que as multidões não cessam de aplaudir
Lhe desperte a alegria que falta à boa gargalhada.
Já vejo,meu doutor, que o mal é incurável.
O clown de que fala, o clown inimitável
Que as multidões diverte a rir no Coliseu,
O riso que ele tem é um riso aparvalhado,
Que só misérias encobrem, um riso desgraçado,
O palhaço, sou eu!!!

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