Pareço ser um, porém sou plural;
Como é natural, sou um múltiplo ser;
Sou feito em camadas e podem me ver
Como um coletivo, humano e banal!

Os atos de hoje recebo amanhã,
Pois eu neste afã colho sempre o que planto;
Sem ter inimigos tenho o próprio pranto,
No meu recomeço de cada manhã.

Eu sou como a pipa perdida no espaço,
Que vai, passo a passo, agitada ao cordel
Bailando esvoaçada, fazendo um tropel,
Buscando o infinito como amplo regaço…

Assim vou passando este meu cotidiano
E, ano após ano, colho o que semeio,
Pois entre os meus “eus” sempre encontro no meio
Um que quer ser anjo e o outro profano.

Por entre os conflitos dos meus muitos Eus,
Todos pigmeus que desejam crescer,
Eu vou construindo este meu próprio ser,
Fazendo os cristãos superar os ateus!

Foi no Apocalipse que o apóstolo João,
Gravou a lição que Jesus lhe mostrou,
Porque nossos erros – nos admoestou -,
Nos fazem sofrer em outra geração…

Se eu mudo o presente altero o futuro,
E transponho o muro que quer me obstar;
A história vivida devo melhorar,
Para preparar-me um viver mais seguro.

Faz sempre marola uma pedra lançada
Na água estagnada, vibrando em rodelas,
E quanto mais olho mais vejo que elas
Vão mais agitando essa água parada!

Também o que eu faço interfere na massa;
E por onde passa deixa um rastro meu,
Porém se sou falso, como um fariseu,
Vou submeter-me a uma grande devassa.

Dos muitos que sou não há um só direito
E, como imperfeito, a sofrer desatino;
É sempre o que há no meu triste destino
Até que eu aprenda a só ter bom conceito.

Ora sou herdeiro, outra vez sou herança,
Da pobre criança que ainda vivo agora,
Porém logo mais há de chegar a hora
Que não viverei mais de vaga esperança.

Um dia as ciências talvez nos expliquem
Mil fatos que impliquem mistérios profundos;
É quando esperamos que os males do mundo,
Nos deixem libertos; no túmulo fiquem…

Duvido que alguém entendeu o que eu disse,
Duvido que eu mesmo me possa entender;
Só sei que é verdade, mas sem compreender,
O que dá impressão que isto tudo é tolice.

São Eus, por enquanto, do ser inferior
Que buscam o Senhor para ser um, somente,
Mas que no futuro, mais que no presente,
Serão, finalmente,  um Eu Superior!

Talvez em cem anos – ou menos um pouco –
Alguém não tarouco demonstre esta tese
E esta de agora, sem ter exegese,
Mostrará por fim a verdade de um louco!

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