Já raiava um novo dia,
O domingo amanhecia
Quando a mãe me despertou:
-Meu filho, estou preocupada,
Passei a noite acordada
Porque seu pai não chegou…

Assustado com o que ouvi,
Me apressei logo em sair
E fui até a construção.
Lá encontrei meu pai sentado,
Todo triste, acabrunhado,
De olhar fincado no chão…

Sem receber seu salário
Porque o patrão usurário
Não pagou a semanada,
Ele estava entristecido,
Mais que isso, aborrecido,
Com a alma despedaçada.

Aquele homem decente,
Que estivera tão doente
Estava sendo aviltado
E eu, seu filho, seu sonho,
Estava também tristonho
Por ver meu pai humilhado.

-Amanhã eu me demito,
Disse-me quase num grito,
Pois isso não é direito.
-Se teu primo é nosso amigo,
Como faz isso comigo
Que lhe dedico respeito!

Apesar da pouca idade,
Com muita serenidade,
Falei-lhe, usando critério,
-Se acalme, pai, dá-se um jeito,
O senhor é homem direito,
Deus protege quem é sério.

-Afinal, lá na gaveta
Daquela cômoda preta
O senhor tem reservado
O valor da prestação
Da bomba do seu João,
Pague alguns dias atrasados.

-Esse dinheiro não é meu,
Bravo meu pai respondeu,
Inda que eu coma capim;
E não me faça careta,
Depois que vai pra gaveta,
Já não mais pertence a mim.

Fiquei todo embevecido
Vendo o gigante ferido,
Meu olho ainda mareja…
Que lição, naquele dia;
Deus do Céu, Virgem Maria;
Bênção meu pai, onde esteja!…

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