Eu queria tanto tocar uma viola,
Do jeito frajola, de um bom cantador;
Fazer meu repente, a qualquer momento,
Com discernimento de improvisador.

Eu queria ser um vate sonhador,
Cheio de esplendor com a ideia dos gênios
Com a sabedoria que existe, por certo,
Lá pelos desertos judeus, nos essênios.

Ponteando a viola, à sombra da jaqueira,
Olhando a palmeira que retalha a lua,
Eu faria versos saídos da alma,
Cobertos da calma que à noite flutua.

Mesmo uma peleja, essa bela disputa,
Que não é uma luta, mas jogo de estima,
Porque no final ninguém perde nem ganha,
Pois nessa barganha só quem vence é a rima.

Eu queria tanto escrever um cordel
E nesse papel deixaria registrado,
Que não consegui ser poeta do povo,
Nem tento de novo, pois fico frustrado.

Só faço sonetos, e sem qualidade,
Porque, para isso, é preciso talento;
Vejo no passado um rol de obra prima,
Não é o que se exprima, num reles momento.

Perdoem o abuso de tanto escrever,
Mas quero aprender, mesmo quebrando a cara.
Hoje só lhes peço que tenham paciência,
Porque esta ciência é virtude bem rara.

Sei que nesta vida não fui contemplado
E nem premiado com o dom de artista,
Por isso me sinto um pouco aleijado;
Decepcionado, em meu ponto de vista!

Eu procuro ter qualidades diversas,
Mas sei que com essas não toco violão.
Que posso fazer, não se pode ter tudo,
Com meu pouco estudo, até que está bom!

Mas eu vou treinando com dedicação
Nesta encarnação, pois talvez na futura
Eu faça repentes, como os maiorais,
Porque hei de ter mais o saber e a candura.

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