De repente – 2003

A culpa não é minha, não é tua
A culpa é do sol, talvez da lua,
Que pôs no teu semblante um brilho intenso,
Um perfume de luz de sol poente,
De uma chuva que escorre, invade a mente,
E que deixa no ar cheiro de incenso.

A culpa é desse olho que arrebata
Que fere muito mais que uma chibata
Como ponta de lança em desafio,
Que provoca, em relance, um treme-treme,
Fazendo qualquer um perder seu leme
E sentir, na doidice, um calafrio.

A culpa é dessa boca que se enfeita
Que uma bala rumina, enquanto espreita
Do que quer, do que ouve e do que sente,
Para depois fazer demonstrações
Que não tem senso, são fulgurações
Que escapam dessa boca, de repente.

A culpa é desse porte louco e altivo,
Que expele pelos poros o abrasivo,
Que fere o coração, ao aplainá-lo,
Porque ele ao saltar dentro do peito,
Quer controlar-se e vê que não há jeito,
Já não domina mais seus intervalos.

Mas a culpa maior de eu não ter calma,
Não controlar as ânsias da minh’alma,
Deve-se, sim, a uma sutil carência,
Que faz com que se perca até o domínio,
Que acaba nos levando ao extermínio
Dos sentidos, por falta de coerência.

Anúncios