Jornalista Carlos Aranha

Em latim: “Non ducor, duco”. Em português: “Não sou conduzido, conduzo”. Este é o lema presente no brasão oficial de São Paulo, a Sampa tão bem louvada por Caetano Veloso, que foi fundada há 460 anos por doze padres jesuítas, entre eles Manuel da Nóbrega e José de Anchieta. Na manhã de 25 de janeiro de 1554, Manuel da Nóbrega escreveu: “Celebramos em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos nossa casa”.

Sou paraibano. Mas não estou entre os que, no Nordeste, rejeitam São Paulo, principalmente por questões políticas. Enfim, caros amigos, os nordestinos Luís Inácio da Silva e Luiza Erundina somente se projetaram nacionalmente por causa de São Paulo.

Tenho amigos paulistas morando em João Pessoa e outros paraibanos em São Paulo, onde decidiram radicar-se depois que o cotidiano mostrou a cada um o significado prático do “não sou conduzido, conduzo”. A eles, em especial, dedico o registro de hoje neste espaço, citando justamente um trecho de “Sampa”: “Ainda não havia Rita Lee/A tua mais completa tradução/Alguma coisa acontece no meu coração/Que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João”.

Já conhecia São Paulo antes de Caetano compor coisa tão bela, mas foi depois de sua música que chorei de emoção e orgulho pela cidade onde não nasci, ao cruzar a Ipiranga e a Avenida São João. Em outras viagens nunca deixei de passar uma manhã ou uma tarde inteira passeando pela Avenida Paulista, a mais bela e cosmopolita da América do Sul, onde todas as vezes vou ao MASP, como se nele entrasse pela primeira vez. São Paulo é praticamente um museu a céu aberto, com bairros e edifícios de incalculável valor histórico. Isto vale mais do que a cidade ser o principal centro financeiro da América Latina, apesar do “povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas”. Apesar “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”, “Vale é que os novos e velhos nordestinos passeiam na tua garoa”. Que os novos e velhos paraibanos “te podem curtir numa boa”.

Como canta o baiano Tom Zé: “ São, São Paulo, meu amor”…

Publicado no Correio da Paraíba de 20/12/2014

Como agradecimento, mandei ao jornalista o email abaixo:

Meu prezado Carlos Aranha.

 

Emocionei-me com sua crônica de hoje no Correio. Nem o mais paulistano da gema diria melhor sobre a minha Sampa.

Nasci na Rua Itapeva, 81 – No Bexiga, bem pertinho do MASP da Paulista, no longínquo ano de 1934. Fui boy por alguns anos, percorrendo cada ruela e cada esquina dessa megalópole que só é odiada por quem não a conhece na intimidade. Ela tem o coração do tamanho do Brasil e acolhe a todos que a buscam por trabalho, por cultura, por lazer. Que falar então do Brahma da esquina da Ipiranga com São João, onde aos sábados me sentava no piano bar para curtir as madrugadas. Um símbolo! Ao lado, o Bar Juca Pato que no meu tempo vivia cheio de artistas de cinema. Hélio Souto, Mario Sérgio e Anselmo Duarte, galãs da Atlântida e Vera Cruz que eram vistos por lá em grandes papos. Estou em João Pessoa há 18 anos (no próximo 21 de janeiro) e já sou cidadão paraibano. Recebi a Medalha Augusto dos Anjos e prefaciei e apresentei cerca de 20 livros de craques paraibanos. Como amo esta terra, fiquei feliz de ler que há alguém que também sabe amar uma terra onde não nasceu. Justiça e sensibilidade.

Obrigado e um grande abraço

 

Octávio Caúmo Serrano

 

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