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Octávio Caúmo Serrano – caumo@caumo.com

Quase todos nós reclamamos da vida. Queixamo-nos por não receber de Deus certas regalias que pensamos merecer, sentindo-nos injustiçados. O que acontece é que estamos com nossas gavetas sempre abarrotadas e nelas não cabe mais nada. Ainda que o Poder Supremo  tenha a intenção de nos premiar com algo, não há espaço para que Ele deposite tais benfeitorias, seja nas gavetas do nosso armário ou nas do nosso coração.

Temos roupas que não vestimos há muito tempo, mas não nos desfazemos delas. Ocasionalmente, foram presentes da sogra que ficaria ofendida se déssemos a outro o que ela nos deu com tanto carinho. Deu, mas continua dona! Poderíamos transformar aquela roupa na alegria de muita gente que não tem o que vestir. Como a gaveta está cheia, Deus pretendia encaminhar-nos uma nova e até mais bonita, mas não encontra espaço.

Se falarmos das gavetas do nosso coração, cheias de mágoas, de insatisfações, de orgulho, de insegurança, veremos que é impossível receber certos presentes que nos deixariam muito felizes. Não cabem na mesma gaveta o egoísmo e o desprendimento; a tristeza e a alegria; o orgulho e a humildade; a mágoa e o perdão!

Para que recebamos de presente certas virtudes, evidentemente que conquistas resultantes do nosso empenho, é preciso que o defeito antagônico desapareça; ou temos fé ou não cremos que Deus é o Senhor de todas as coisas e só permite certos acontecimentos desagradáveis na nossa vida como aprendizado. É nas crises que crescemos. Acreditamos nisso? Vejam, senhores, a frase de Chico Xavier que retrata esta verdade: “É quando a noite se enche de luto que o homem divisa o esplendor das estrelas.”

Além das gavetas do armário e as do coração, temos as do pensamento: quase sempre entulhadas de assuntos negativos. Vemos o caos em tudo; reclamamos se chove ou venta e se faz frio ou calor. Esquecemos que somos inquilinos de uma casa perfeita, onde moramos de favor, sem pagar aluguel nem condomínio, além de nela aprendermos de sentimento e razão,  de solidariedade e esperança, embora nossa presença seja quase sempre negativa porque ajudamos mais a destruí-la que a melhorá-la!

Você que já tem algum entendimento, comece a esvazias suas gavetas, as físicas e as da alma, para receber de Deus presentes de durabilidade permanente; seus para toda a eternidade. Os únicos realmente seus e que poderá levar quando deixar esta morada provisória!

Jornalista e poeta

Jornal Correio da Paraíba – 24/04/2015

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Autor desconhecido

Um fato real. Dois irmãozinhos maltrapilhos, provenientes da favela – um deles de cinco anos e o outro de dez – iam pedindo um pouco de comida pelas casas da rua que beira o morro. Estavam famintos:

– Vai trabalhar e não amole. Ouvia-se detrás da porta. – Aqui não há nada moleque… – dizia outro… As múltiplas tentativas frustradas entristeciam as crianças… Por fim, uma senhora muito atenta disse-lhes:  – Vou ver se tenho alguma coisa para vocês… coitadinhos! E voltou com uma latinha de leite. Que festa! Ambos se sentaram na calçada. O menorzinho disse para o de dez anos: – Você é mais velho, tome primeiro… E olhava para ele com seus dentes brancos, a boca semi-aberta, mexendo a ponta da língua. Eu, como um tolo, contemplava a cena… Se vocês vissem o mais velho olhando de lado para o pequenino! Leva a lata à boca e, fazendo gesto de beber, aperta fortemente os lábios para que por eles não penetre uma só gota de leite. Depois, estendendo a lata, diz ao irmão: – Agora é sua vez. Só um pouco. E o irmãozinho, dando um grande gole exclama: – Como está gostoso! – Agora eu – diz o mais velho. E levando a latinha, já meio vazia à boca, não bebe nada. – Agora você. – Agora eu. – Agora você. – Agora eu… E, depois de três, quatro, cinco ou seis goles, o menorzinho, de cabelo encaracolado, barrigudinho, com a camisa de fora, esgota o leite todo…ele sozinho Esse «agora você», «agora eu» encheram-me os olhos de lágrimas… E então, aconteceu algo que me pareceu extraordinário. O mais velho começou a cantar, a sambar, a jogar futebol com a lata de leite. Estava radiante, o estômago vazio, mas o coração trasbordante de alegria. Pulava com a naturalidade de quem não fez nada de extraordinário, ou melhor, com a naturalidade de quem está habituado a fazer coisas extraordinárias sem dar-lhes maior importância. Daquele moleque nós podemos aprender a grande lição, «quem doa é mais feliz do que quem recebe.» É assim que nós temos de amar. Sacrificando-nos com tal naturalidade, com tal elegância, com tal discrição, que os outros nem sequer possam agradecer-nos o serviço que nós lhe prestamos.

Lembra-nos as lições de São Paulo sobre a caridade: A caridade é mansa, não é soberba, não ofende, não humilha.

Por Sebastião Aires de Queiroz

Meu caro amigo poeta.
Não quero mais clinicar –
Depois dos oitenta e um,
Acho que se impõe parar -,
Mas sempre que cliniquei,
Meus versos eu sempre usei
Para aos clientes tratar.

Sobretudo usei mensagens
Para fazer prevenção
De muitas patologias
Que atingem a população.
E, assim, como pretendia,
Fiz do verso ou poesia
Bons instrumentos de ação.

Versejei o Diabetes,
A Dengue e a Hipertensão;
A Influenza, grave gripe;
AIDS, vil infecção;
Combati o Tabagismo
As drogas e o alcoolismo,
Cumprindo minha missão.

Fiz um cordel sobre AIDS
E outras doenças venéreas;
Um poema sobre o aborto,
De sequelas deletérias;
Rimei o câncer de mama,
Mal que tem a triste fama
Nas consequências funéreas.

Rimei a “Peste Bubônica”,
Bem como a “Febre Amarela”;
O “Cobreiro” traiçoeiro
(Eu mesmo padeci dela);
Quanto à fisioterapia
E a fitoterapia –
Versejei  cada uma delas.

Fiz poema sobre o estresse
E o viver cotidiano;
Versejei a acupuntura,
Poema de que me ufano.
Fiz versos sobre velhice
Sem achaque ou rabugice,
Tão comum no ser humano.

Sempre usei, na profissão,
Mensagens espirituais,
Que são boas terapias,
Mesmo em males corporais.
A psicoterapia
E a ternuraterapia
Complementam as demais.

Fé e espiritualidade –
Assim concebe a ciência –,
Na moderna medicina
Tem decisiva influência.
Afugentam malefícios
E promovem benefícios.
Confortam nossa existência.

Na tensão ou ansiedade,
Uma boa terapia
Será prescrever meus versos,
Que ao paciente alivia.
Mas se um bom sono chegar,
São “cantigas de ninar”,
Úteis à noite ou de dia.

Se voltasse a exercer
Novamente a profissão,
Eu chamaria um poeta
Pra ajudar-me na missão
De ministrar poesia
Como eficaz terapia
Do corpo, alma e coração.

Médico e poeta – Membro da Academia Paraibana de Poesia

Ai que coisa esquisita que é o repente,
Quando alguém me convida pra cantar,
Se nem mesmo a viola eu sei tocar;
Como vou encarar toda essa gente
Que me olha e que ri mostrando os dentes
Perguntando: -O que faz esse atrevido
Que no meio de nós tem-se metido,
Querendo se mostrar, irreverente?
Ai que coisa esquisita que é o repente!
Se pra gente ele é um desconhecido…

Ai que coisa esquisita que é o repente,
Mas não posso correr desse convite
Pois percebo que querem que eu imite,
O que faz o poeta competente;
Mas não tenho talento em tal vertente,
E nem estou me fazendo de rogado.
Só não quero pôr verso atrapalhado,
Que não tem nem beleza nem cultura,
Como fruta inda verde, inda imatura,
De terreno sem ser fertilizado.

Ai que coisa esquisita que é o repente,
Mas eu gosto de ouvir um repentista,
Que é bom mesmo, que tem veia de artista,
Que canta com seus versos conscientes;
Por isso é que eu vou, daqui pra frente,
Estudar violão e poesia,
Para ver se também na cantoria
Eu chego a conseguir algum progresso,
Depois volto, se conseguir sucesso,
Mas lhes peço dispensa neste dia.

Ainda ecoam em meus ouvidos
Os bemóis e os sustenidos
Das canções e cantadores,
O ponteado dos violeiros
Dos marimbaus, sanfoneiros,
Do verso cheirando a flores…

Ali o respiro é a poesia,
Que se espalha em nostalgia
Por todo o ar, na secura,
Na rogativa com mágoa
Que implora a Deus mande água
Para voltar a fartura…

Deus abençoe São José
Do Egito onde mesmo fé
É dita com emoção;
E a criança que aparece
Aprende logo que a prece
É a poesia em oração!

Foi noite de enlevamento,
Foi pausa no sofrimento
Calou-se um pouco a matéria
Enquanto a alma bebia
O requinte da poesia
Que ali é uma coisa séria.

Pude ter o privilégio
De conviver com esse egrégio
Ambiente de cultura
Por uma noite, somente,
Mas que foi o suficiente
Para elevar-me às alturas.

Ninguém está lhe pedindo:
– Faça voto de pobreza,
Mas lembre-se que pra muitos
Falta até pão sobre a mesa,
Enquanto que em seu conforto
Há requinte em sobremesa.

Não é preciso que tire
Do que lhe é necessário,
Mas que se lembre do outro
Que vive tão solitário,
Já que as sobras de sua casa
Farão dele um milionário…

Precisamos para a vida
Bem menos que imaginamos
Pois um dia no futuro
Quem sabe nos encontramos
E iremos sentir a falta
De tudo o que sonegamos.

Faça o bem! Está é a receita
Para a tal felicidade
Que não é, dizem, do mundo
Que estamos na atualidade,
Mas é onde vende a passagem
Do trem para a eternidade.

A imagem acima é um risco para pintura em óleo sobre tela, de Leonardo da Vinci.
Boletim Informativo "Tribuna Literária"
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